O recente conflito no Oriente Médio introduziu uma nova camada de complexidade para a economia brasileira.
Enquanto os preços internacionais do petróleo operam sob forte volatilidade, o mercado doméstico monitora os reflexos na inflação e a capacidade do Banco Central de manter o cronograma de flexibilização monetária previsto para o primeiro trimestre de 2026.
O prêmio de risco e o gargalo logístico
Com a onda de ataques dos EUA e Israel contra o Irã, a percepção de risco geopolítico passou a se sobrepor aos fundamentos de oferta e demanda no curto prazo.
Segundo Felipe Sze, gestor de multimercados do ASA, o mercado vive um cenário de "altíssima volatilidade" diante da imprevisibilidade da escalada militar.
"O viés para o petróleo é de alta a cada dia em que o conflito não se resolve, refletindo o prêmio de risco pela dificuldade logística e o receio de gargalos no escoamento global", explica Sze.
Ele ressalta, contudo, que a reação atual é precaucional: "Como o mercado reage hoje a uma interrupção de fluxo, e não a danos físicos permanentes, qualquer sinalização de normalização deve gerar uma correção rápida nos preços".
O ponto nevrálgico é o Estreito de Ormuz, por onde passam cerca de 20% do fornecimento global de petróleo e gás natural liquefeito (GNL).
Andressa Durão, economista do ASA, destaca que o impacto de um bloqueio depende diretamente de sua duração.
"Se for breve, o efeito tende a ser limitado, já que empresas podem recorrer a estoques e rotas alternativas. Caso se estenda por meses, os estoques se esgotam e ocorre uma redução significativa da oferta global", afirma.
A economista lembra ainda que a China é o elo mais frágil dessa corrente, já que recebe 14% de suas importações de petróleo diretamente do Irã.
Para tentar mitigar o choque, a OPEP+ (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) concordou em elevar a produção em 206 mil barris por dia, superando a previsão inicial de 137 mil, mas o volume ainda não foi suficiente para estabilizar as cotações.
Impactos na inflação
No cenário interno, a política de suavização da Petrobras atua como um amortecedor, mas não é imune a pressões prolongadas.
O economista Leonardo Costa projeta que o diesel deve sentir a pressão antes da gasolina, devido à maior dependência de importação e à defasagem acumulada.
As contas de inflação já começam a ser atualizadas:
"Em termos inflacionários, um aumento de 10% na gasolina adiciona cerca de 20-25 bps ao IPCA, enquanto o diesel impacta de forma indireta via custos logísticos", aponta Costa.
Efeitos nos juros no Brasil
Apesar da turbulência, o consenso inicial é de que o plano de voo do Banco Central para a reunião de março permanece inalterado. No entanto, o prolongamento da crise pode alterar o "patamar" de equilíbrio dos preços.
Fabiano Zimmermann, head de fundos de renda fixa do ASA, observa que o mercado de juros já precifica essa incerteza.
"O conflito não deve alterar, neste momento, o plano do BC de iniciar o ciclo de cortes em março. No entanto, caso a crise se prolongue, seus desdobramentos podem interromper a valorização do real e provocar uma mudança no patamar do petróleo", explica.
Segundo ele, esse movimento já é visível na curva de juros, com o aumento dos prêmios na parte intermediária, o que pode limitar a queda total da Selic ao fim do ciclo.
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