Artigo escrito por Rogerio Freitas, head de investimentos do ASA
Imagine que estamos tentando criar um modelo de construção de portfólio e seleção de ativos que supere o mercado nos próximos 10 anos.
Após muita pesquisa e testes minuciosos, finalizamos nossa abordagem. Embora não pudéssemos saber disso antecipadamente, imagine que o sistema que desenvolvemos seja o ideal.
Diante disso, adivinhe o que provavelmente faremos com o processo de investimento que desenvolvemos ao longo dos próximos anos?
Mudá-lo e piorá-lo.
Mesmo que criemos uma abordagem de investimento perfeita, a tentação de mexer e ajustar provavelmente será irresistível. Mas por que é tão difícil perseverar mesmo quando temos um método sólido?
Há uma incompatibilidade entre o feedback de preços, performance e volatilidade de curto prazo e as metas de longo prazo: se o objetivo do nosso processo de investimento é de longo prazo, usar o desempenho de curto prazo como meio de avaliar sua robustez provavelmente, na melhor das hipóteses, será sem sentido e, na pior, totalmente contraproducente.
Todas as abordagens de investimento, mesmo as ideais, passarão por períodos de estagnação ou má performance, e reagir a eles com modificações constantes no processo é um caminho certo para resultados ruins.
Mas também existem outros fatores que nos fazem piorar nossos processos e sermos os maiores inimigos dos nossos investimentos.
A necessidade de estar sempre fazendo algo
Manter a fé em um processo de investimento a longo prazo significa muito tempo sem fazer nada. Isso parece fácil, mas está longe disso. Os mercados financeiros estão em constante fluxo, gerando perpetuamente narrativas novas e persuasivas. Flutuações temporárias nos mercados muitas vezes parecem uma mudança radical quando as vivenciamos. O desejo de agir é grande.
Duvidar do processo
Quando nossa abordagem sofre com um desempenho ruim de curto prazo, haverá uma pressão intensa para mudar o processo. Isso ocorrerá por meio de dúvidas internas (e se meu processo estiver falho? E se a equipe de gestão se tornou desatualizada e preciso atualizar premissas?) e, para investidores profissionais, pressões externas – “você está com desempenho abaixo do esperado, faça algo a respeito”.
Mudar nosso processo pode nos fazer sentir melhor (menos estressados, pressionados e ansiosos), mesmo que não acreditemos que seja a coisa certa a fazer.
Sentir-se no controle
A instabilidade e a incerteza nos mercados financeiros podem ser profundamente perturbadoras e desconfortantes. Ajustes no processo podem, erroneamente, dar a sensação de que estamos recuperando algum tipo de controle. Mas toda vez que interferimos no método geramos custos e interrompemos um processo no meio do seu amadurecimento.
Supervalorizar informações recentes
O viés de recência significa que tendemos a supervalorizar a importância dos eventos atuais e desconsiderar fortemente o passado. Dada a variabilidade inerente dos mercados financeiros em curtos períodos, isso significa que seremos continuamente tentados a ajustar nosso processo com base no que está acontecendo agora.
Excesso de confiança
Nossa capacidade de causar um impacto positivo é enormemente superestimada. Se tivermos uma abordagem de investimento prudente para começar, melhorá-la provavelmente não será fácil. Inevitavelmente, exageraremos grosseiramente nossa capacidade de implementar mudanças que aumentarão nossas chances de sucesso.
Otimizar em vez de satisfazer
Nosso desejo de ajustar e tentar aprimorar nosso processo de investimento é impulsionado pela crença de que devemos sempre otimizar, encontrar a melhor solução possível de retornos todos os anos. Embora seja um objetivo nobre em teoria, a profunda incerteza dos mercados financeiros o torna perigoso na prática.
Uma busca eterna e ilusória pelo melhor investimento daquele mês e daquele ano, provavelmente, levará a pelo menos tantas decisões ruins quanto boas. Adotar uma estratégia que seja suficientemente boa e mantê-la por muito tempo provavelmente será o melhor caminho para a maioria de nós.
Lembre-se que o tempo é o maior aliado dos investimentos, pois a composição de bons retornos anuais (não precisam ser ótimos) levam ao aumento exponencial do seu patrimônio no longo prazo.
Intelecto acima do comportamento
Nossas mudanças de processo tenderão a se concentrar na busca intelectual por novas fontes de informação ou em aplicá-las de maneiras diferentes. Pouca atenção parece ser dada aos desafios comportamentais do investimento. A abordagem de investimento mais robusta será destruída se não tivermos a força de vontade para perseverar com ela.
Pode parecer que estou sugerindo que nunca devemos tentar melhorar nosso processo de investimento. Não é esse o caso. Esforçar-se para aprender e se desenvolver é vital. É fundamental entender, no entanto, que nossa tendência será inevitavelmente fazer demais, muitas vezes na hora errada. Precisamos ter um limiar adequadamente alto para a mudança.
Nunca subestime a vantagem obtida por um investidor que possui um método sensato e consegue segui-lo.
Importante termos humildade em reconhecer a dificuldade de bater o mercado e aceitar que um bom e robusto processo de investimento pode atravessar janelas desfavoráveis no curto prazo e seguir entregando bons retornos no longo prazo. Mas, mais do que isso, confie no processo.
Se você tem um método de investimento robusto, testado e comprovadamente de sucesso, confie nele, faça chuva ou sol, siga o mapa. Apesar de todas dúvidas e inseguranças no meio do caminho, evite reagir e cair na tentação do caminho fácil.
Assim como num dos episódios mais famosos da mitologia grega, devemos fazer como Ulisses, que se amarra ao mastro do navio e manda seus marinheiros taparem os ouvidos com cera para resistir ao canto das sereias.
A superação das tentações através da astúcia e da força de vontade levou Ulisses com segurança de volta à Ítaca e também nos levará a atingir nossos objetivos de retorno com segurança.
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