O mercado de crédito privado iniciou o ano sob maior cautela, após um biênio de expansão robusta. Contudo, a despeito da percepção de maior volatilidade, o segmento demonstra resiliência, afastando teses de uma crise estrutural.
Essa avaliação, compartilhada por agentes do setor, é corroborada pelos indicadores recentes da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais).
Além da volatilidade pontual, o estresse recente no mercado permitiu uma reprecificação dos ativos. Os spreads retornaram a patamares observados em meados de 2025, o que recoloca os papéis corporativos no radar de investidores que buscam recompor o prêmio de risco das carteiras.
Na avaliação de Caio Crepaldi, head de fundos de crédito privado do ASA, o ciclo de resgates observado recentemente provocou distorções de preços, sobretudo no mercado secundário.
Em períodos de saída de fluxo, os gestores priorizam a venda de ativos com maior liquidez para honrar os resgates, o que pressiona as cotações de papéis cujos fundamentos de crédito permanecem intactos.
“Você acaba tendo distorções. Papéis que não pioraram podem oferecer uma relação risco-retorno mais interessante”, afirmou Crepaldi em entrevista ao Money Times.
Segundo Crepaldi, esse movimento abre janelas para que gestores ativos capturem ineficiências de mercado, enquanto os spreads convergem para níveis de normalidade – e, em casos específicos, apresentam taxas de retorno superiores às médias históricas.
A expectativa é que, com o arrefecimento dos resgates, o mercado retome a seletividade. O cenário, contudo, ainda exige parcimônia.
"Faz sentido aproveitar oportunidades, mas com uma carteira balanceada", disse Crepaldi.
Onde estão as oportunidades?
A leitura de Crepaldi aponta que as oportunidades mais nítidas se concentram no mercado secundário, particularmente em ativos que sofreram com a dinâmica de fluxo e não por deterioração de balanço.
Ativos de maior qualidade (high grade), especialmente no segmento pós-fixado atrelado ao CDI, já emitem sinais de estabilização e voltam a atrair o investidor institucional em busca de carrego.
No que tange à alocação setorial, o mercado doméstico de crédito privado mantém sua concentração em segmentos defensivos, como energia elétrica, saneamento e logística de infraestrutura.
Essa configuração reflete a previsibilidade de geração de caixa dessas companhias, fator crítico em um ambiente de juros reais elevados.
Em contrapartida, setores cíclicos, como varejo e aviação, demandam monitoramento rigoroso, dado o custo financeiro mais oneroso e o cenário macroeconômico ainda em transição.
Contudo, Crepaldi ressalta que a análise de valor não se restringe a nichos específicos.
“Somos agnósticos. O importante é entender a empresa, o setor e se a relação risco-retorno faz sentido”, disse.
Fluxo e fundamentos no radar
Embora o cenário apresente melhora marginal, os riscos remanescentes exigem vigilância. O principal fator de atenção continua sendo a dinâmica de fluxo.
Como observado nas últimas semanas, movimentos bruscos de resgate nos fundos de crédito podem gerar deslocamentos nos spreads, independentemente do rating ou da qualidade dos emissores.
“Às vezes o papel não mudou nada em termos de fundamento, mas o spread abre por conta de saída de recursos. O fluxo tem um peso muito grande nesse mercado”, destacou Crepaldi.
Leia a reportagem completa no Money Times.