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O caminho até aqui
Os conflitos no Oriente Médio sofreram uma forte escalada no início de junho, contrariando qualquer expectativa de estabilização rápida na região.
A onda de ataques com mísseis balísticos promovida pelo Irã contra Israel e as subsequentes respostas militares contra plantas petroquímicas iranianas reacenderam o sinal de alerta máximo nos mercados financeiros globais.
Diante de um choque energético que se estende no tempo, os principais bancos centrais das economias avançadas foram forçados a manter um tom mais duro e cauteloso.
Nos EUA, a atividade econômica permanece resiliente e o mercado de trabalho sólido, mas os núcleos de inflação elevados e o risco envolvendo as commodities fazem com que o Fed (Federal Reserve) reforce a necessidade de manter as taxas de juros básicas em território restritivo por um período ainda mais prolongado. Na Europa, a dinâmica é similar.
Por aqui no Brasil, o ambiente macroeconômico doméstico tem sido testado pelo prolongamento desse cenário de juros externos elevados e pela contínua deterioração das expectativas inflacionárias internas.
O mercado financeiro local encerrou o último período com as projeções do IPCA subindo pela 13ª semana consecutiva no último Relatório Focus, alcançando a marca de 5,11% para 2026.
"Para o IPCA de maio, a expectativa é de desaceleração, com dissipação do choque recente vindo do conflito no Oriente Médio, especialmente via deflação de combustíveis após pressão nos meses anteriores. Ainda assim, o balanço qualitativo da inflação segue deteriorado, reforçando um cenário preocupante para inflação no curto prazo", avalia Leonardo Costa, economista do ASA.
Diante de tudo isso, o comitê de política monetária nacional vem mantendo uma postura vigilante e adaptada ao novo cenário de juros globais altos por mais tempo.
A expectativa para a próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), é de redução do ritmo de afrouxamento e sinalizando juros em patamares mais elevados do que o antecipado no começo do ano.
De olho em Brasília
Além da forte pressão sobre as commodities energéticas, a condução da política fiscal no Brasil ganhou novas camadas de complexidade que preocupam os analistas do mercado financeiro. O foco das discussões recentes se voltou para as decisões do poder judiciário e suas implicações orçamentárias diretas na Previdência Social.
"A decisão parcial do Supremo Tribunal Federal, que derrubou a exigência de idade mínima para a concessão de aposentadorias especiais de trabalhadores expostos a agentes nocivos, abre uma nova e relevante frente de preocupação fiscal", afirma Jeferson Bittencourt, head de macroeconomia do ASA.
Assim, essa medida deve antecipar de forma expressiva o fluxo de concessão de benefícios previdenciários no país. Os impactos financeiros dessa nova flexibilização previdenciária devem pressionar fortemente as contas públicas.
"Estimamos que o impacto fiscal dessa decisão judicial poderá alcançar facilmente alguns bilhões de reais ao longo da próxima década, reforçando a rigidez do nosso sistema e elevando o prêmio de risco exigido pelos investidores", avalia Bittencourt.
Enquanto isso, os gastos obrigatórios continuam crescendo acima do PIB, o que eleva o risco de que as despesas totais excedam o teto estabelecido para o ano, exigindo contingenciamentos adicionais pelo Poder Executivo.
Nesse sentido, ganham relevância as discussões sobre novas regras que possam blindar o Orçamento e garantir que novas renúncias ou despesas sejam devidamente compensadas com receitas permanentes e sustentáveis.
“A situação das contas públicas brasileiras demanda extrema atenção e um acompanhamento diário e milimétrico da agenda de reformas do governo”, alerta Bittencourt.
Na visão do economista, em um ambiente de expectativas desancoradas e revisões consecutivas de inflação para cima, qualquer sinalização de afrouxamento nas metas de superávit ou de complacência com o gasto público tende a acelerar a deterioração dos ativos locais.
O que tem no horizonte
O cenário de Brasília neste início de junho promete ser de intensa movimentação legislativa, com os holofotes do mercado focados na agenda do Senado Federal, sob a liderança do presidente Davi Alcolumbre.
O principal destaque político do mês será a reunião de líderes partidários para debater e dar andamento à tramitação da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) que propõe o fim da escala de trabalho 6x1. A matéria foi aprovada no dia 27 de maio na Câmara dos Deputados e agora aguarda discussão no Senado.
O presidente da Casa já indicou que a proposta não será analisada diretamente pelo Plenário do Senado e terá de passar pelas comissões antes. Alcolumbre ressaltou que o Senado precisa discutir o texto, e não apenas "carimbar".
Este projeto carrega um forte apelo de mobilização social, mas é acompanhado de perto pelo setor produtivo devido aos seus impactos potenciais sobre a produtividade, os custos trabalhistas e os repasses de preços ao consumidor final.
Paralelamente, na CAE (Comissão de Assuntos Econômicos), a pauta econômica deve avançar com os debates em torno da PEC da autonomia financeira do Banco Central e com a audiência pública do presidente do BRB.
No campo do desenvolvimento setorial e industrial, as atenções em junho se voltam para o avanço de novos programas governamentais de incentivo ao consumo e ao crédito.
O mercado aguarda mais detalhes do Mover Motos, uma nova linha de financiamento voltada para motociclistas de aplicativos e que deve ser anunciada pelo governo federal nesse mês.
O programa deve seguir os moldes do Mover Aplicativos, lançado recentemente para motoristas e taxistas. Nesse caso já conhecido, o programa reduz os juros do financiamento de veículos destinados a motoristas de aplicativo e taxistas, com limite de R$ 150 mil para carros zero quilômetro, autorizando uma linha de crédito de R$ 30 bilhões.
Os recursos virão do Tesouro Nacional e serão repassados ao BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).
Renda fixa
Maio e o início de junho marcaram uma transição no mercado de crédito privado nacional, trazendo os primeiros sinais consistentes de acomodação para o setor. Após o intenso ciclo de alta dos spreads (a diferença entre o rendimento do título privado e a taxa básica de juros) que vinha se arrastando desde o final de fevereiro, o mercado local começou a demonstrar maior estabilidade.
Nos papéis indexados ao CDI, a dinâmica observada ao longo de quase todo o período recente foi significativamente mais construtiva, apresentando queda gradual dos spreads e devolvendo boa parte da abertura anterior.
Esse movimento reforçou a resiliência estrutural dos ativos de melhor qualidade de crédito, embora os fundos de infraestrutura e debêntures incentivadas ainda tenham enfrentado pressão devido ao fluxo de resgates.
O mercado primário de crédito privado seguiu operando com menor dinamismo e com perdas adicionais de força no volume de emissões, refletindo o apetite ainda muito seletivo por novas alocações. Já no mercado secundário, os volumes seguiram próximos às médias históricas recente.
Entre os títulos públicos, o programa Tesouro Direto chegou a um estoque total de R$ 242,3 bilhões em abril, o que representa um avanço de 3,3% em relação ao mês anterior. O volume total de vendas atingiu a marca de R$ 8,552 bilhões contra R$ 3,393 bilhões em resgates.
A preferência do investidor em meio ao cenário de juros restritivos ficou com os títulos atrelados à taxa Selic (Tesouro Selic e Tesouro Reserva) liderando de forma isolada a demanda, com 56,1% das novas vendas.
Renda variável
No mercado acionário doméstico, o último mês foi marcado por um ambiente de aversão ao risco severo, fazendo com que o principal índice da bolsa brasileira sofresse desvalorização expressiva.
O Ibovespa encerrou o período com uma queda contundente de 7,22%, penalizado diretamente pelo avanço das taxas de juros futuras e pelas incertezas que cercam o cenário fiscal e inflacionário do país.
Em contrapartida, o mercado de câmbio refletiu a busca global por proteção e a fuga de capital dos mercados emergentes em direção aos ativos denominados em moeda forte americana.
O dólar comercial registrou um avanço de 1,62% no mesmo período frente ao real brasileiro, operando de forma pressionada pelas tensões crescentes envolvendo o Irã e Israel e a postura rígida do Fed.