O acordo de paz entre Estados Unidos e Irã, depois de mais de dois meses em guerra, não chegou a tempo de mudar a decisão de juros do Copom (Comitê de Política Monetária), que será anunciada nesta quarta-feira (17).
Os dois países entraram em um consenso mediado pelo Paquistão, que garantiu que o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% da reserva de petróleo mundial, será reaberto após as assinaturas de ambas as partes ainda nesta semana.
Durante o conflito, a commodity chegou a preços acima do US$ 100 o barril, causando pressão inflacionária global e levando preocupações aos bancos centrais mundiais.
Agora, apesar de a tensão geopolítica dar sinais de que chegou ao fim, o cenário externo não deve reagir imediatamente, dado o aumento da incerteza causada pelo conflito e a dúvida sobre a duração do próprio acordo (vale lembrar que os últimos acordos de cessar-fogo tiveram pouca eficácia no encerramento do conflito).
Para o economista Leonardo Costa, do ASA, o movimento traz alívio, mas não muda o cenário monetário que já havia se desenhado no Brasil.
"Mesmo com o alívio de curto prazo trazido pelo acordo, permanecem os motivos para o Banco Central interromper o ciclo de corte de juros e observar o comportamento das variáveis macroeconômicas num ambiente adverso".
Segundo ele, diante da meta de 3% e da deterioração contínua do cenário nos últimos meses, o quadro ainda pede cautela. "Seguimos apostando em apenas mais um corte de 0,25 pp na reunião de junho, com a Selic encerrando 2026 em 14,25%".
Efeitos até aqui
Apesar do alívio que um acordo traz à essa altura, em especial pela reabertura do Estreito de Ormuz, o economista lembra que a Petrobras e o governo federal (via subsídio ou desoneração de imposto) ajudaram a segurar parte dos repasses da alta do petróleo aos combustíveis, pressionando menos a cesta do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).
No campo dos alimentos, Costa explica que o choque de preços foi sentido com mais força via aumento dos fertilizantes, pressionando a cadeia de custos no país, com impacto sobre a inflação de alimentos no curto prazo. Soma-se a isso o risco do El Niño, que deve vigorar na segunda metade do ano e tende a piorar o cenário, elevando a inflação de alimentos.
Ou seja, a fotografia pré acordo segue a mesma: atividade doméstica aquecida; mercado de trabalho apertado; desemprego nas mínimas históricas; e expectativas de inflação cada vez mais deteriorada, sobretudo para os anos 2028 e 2029.
"Boa parte desses riscos já era conhecida antes da reunião, que havia optado por seguir via calibragem de juros, o que sinalizava, implicitamente, um ciclo curto de cortes. Assim, a volatilidade externa é apenas mais uma fonte de informação num cenário já turbulento".
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