O cenário macroeconômico brasileiro sofreu uma reviravolta expressiva ao longo do ano. O ponto de partida contava com expectativas otimistas, impulsionado por sinais de arrefecimento da atividade e pela tendência global de queda nos juros.
Contudo, conforme avaliou Jeferson Bittencourt, head de macroeconomia do ASA, esse movimento inicial foi abruptamente interrompido pela "deflagração da guerra, alterando profundamente as projeções tanto no Brasil quanto no exterior".
Segundo o economista, o impacto do conflito no Oriente Médio ultrapassou a barreira dos choques externos tradicionais, como a alta das commodities, do petróleo e dos combustíveis.
O fator determinante foi político e doméstico.
"O conflito abriu espaço para que o governo encontrasse justificativas para conceder estímulos econômicos, substituindo os fatores externos por condicionantes internos atrelados à expansão fiscal sob o pretexto de mitigar crises".
A guinada nos rumos da economia ganhou materialidade em números expressivos. De acordo com Bittencourt, foram injetados R$ 147 bilhões em funding para crédito, além de R$ 50 a R$ 60 bilhões em despesas primárias voltadas a subvenções e subsídios aos combustíveis.
Para ele, o ímpeto de amenizar os choques levou a uma agenda de incentivos capilarizada para frentes totalmente desconectadas do cenário bélico.
"O volume de incentivos foi tão expressivo que a expectativa de um ciclo mais consistente de cortes na Selic acabou sendo corroída por fatores estritamente domésticos", destacou o economista.
Diante do atual panorama de descontrole das contas públicas, o espaço para novas reduções na taxa básica de juros se tornou escasso.
Embora ainda exista uma "probabilidade não nula de algum ajuste marginal", a avaliação do ASA é de que o Banco Central pode já ter encerrado o ciclo de flexibilização, "projetando a Selic em no máximo 14% (ou ligeiramente acima) até o final do ano".
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