O cenário econômico global atravessa um momento de mudanças que cria condições propícias para uma migração de investimentos em direção aos mercados emergentes.
De acordo com Rogério Freitas, head de investimentos do ASA, estamos diante da formação de um ciclo clássico de rotação de ativos.
Esse movimento, que transfere o capital de grandes mercados desenvolvidos para economias em desenvolvimento, é sustentado por uma combinação de fatores que, somados, sugerem que o momento de buscar oportunidades fora dos Estados Unidos é muito claro.
Um dos pontos centrais dessa tese é a valorização excessiva das ações americanas. Freitas destaca que o índice S&P 500 iniciou o ano com múltiplos de preço sobre lucro em 22 vezes, um patamar elevado historicamente associado a períodos de risco elevado, como a bolha das empresas de tecnologia nos anos 2000.
"Em termos mais estruturais, o prêmio de risco do mercado está em um dos níveis mais baixos já registrados, refletindo um mercado sem margem de segurança".
Ou seja, na avaliação de Freitas, o retorno extra que o investidor exige para investir em ações em vez de títulos seguros, que se encontra em níveis mínimos, é pequeno o suficiente para tornar o mercado americano um destino caro e altamente concentrado.
Além disso, o ambiente macroeconômico global impõe desafios aos ativos de risco concentrados em um único país.
Tensões geopolíticas, como o conflito entre Estados Unidos e Irã, somadas às pressões inflacionárias causadas pela alta do petróleo, criam um pano de fundo de incertezas.
E, como se não bastasse, a esse cenário se junta, ainda, as dúvidas sobre a política monetária americana e a sucessão na liderança do Federal Reserve (o banco central americano). Tudo isso reduz a tolerância do investidor ao risco concentrado, incentivando a busca por alternativas mais equilibradas.
Por que isso empurra fluxo para emergentes?
Esse movimento é impulsionado por uma perspectiva de dólar mais fraco, o que alivia o fardo das dívidas externas desses países, e por um desconto expressivo no preço das ações emergentes em comparação com os mercados desenvolvidos.
Como aponta Freitas, a concentração dos investimentos globais nos Estados Unidos se tornou tão extrema que pequenas movimentações de capital já geram um impacto positivo significativo nos países emergentes, que possuem uma classe de ativos menor e, portanto, mais sensível a esses fluxos.
Contudo, a estratégia de investimento não deve ser desenhada de forma uniforme. O gestor ressalta que a seletividade é a chave.
"Coreia e Taiwan estão no centro do ciclo de inteligência artificial e semicondutores; enquanto Índia segue com forte demanda doméstica e reformas; e Brasil e México se beneficiam de diversificação de cadeias produtivas e nearshoring (a transferência de fábricas para países geograficamente mais próximos dos mercados consumidores)".
O head de investimentos do ASA explica, no entanto, que embora o cenário seja otimista, é indispensável manter o monitoramento atento aos riscos. Uma retomada inesperada e intensa da economia americana pode fortalecer o dólar novamente, revertendo o momento atual.
"Além disso, uma reversão abrupta do ciclo de alta das empresas de tecnologia impactaria os mercados mais expostos ao setor tech".
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