Um dos pontos de maior tensão no debate econômico atual é a diferença entre a projeção de curto prazo para as contas públicas e o temor crescente sobre a trajetória da dívida brasileira.
De março a junho, o percentual de analistas que viram piora da situação fiscal entre as reuniões do Copom subiu de 6% para 50%, segundos dados divulgados pelo Banco Central.
O paradoxo se instala quando analisamos os números operacionais: embora tenha havido uma revisão para cima tanto de receitas quanto de despesas, a projeção de primário melhorou, já que o ganho de receita superou o aumento do gasto.
No entanto, o mercado reage com ceticismo. O que intriga os agentes econômicos, e o próprio Banco Central, é o fato de que, no mesmo período, as projeções para a Dívida Bruta do Governo Geral e a Dívida Líquida do Setor Público (DBGG e DLSP) pouco mudaram. Essa é a avaliação de Jeferson Bitencourt, head de macroeconomia do ASA.
Segundo ele, essa estagnação das projeções de dívida, mesmo diante de um primário nominalmente melhor, revela que o mercado não está olhando apenas para o saldo da conta corrente do governo, mas para a sustentabilidade da trajetória de endividamento.
Como estas percepções conversam?
Segundo o economista, a resposta reside no nível de incerteza em torno do cenário macrofiscal. O Banco Central tem sido o vetor dessas dúvidas, mantendo um tom de vigilância sobre a qualidade do ajuste.
"As melhorias de receita se deram essencialmente por perspectivas de mais arrecadação com o preço do petróleo e com os ganhos gerados pela revisão para cima das expectativas de inflação. Já do ponto de vista dos riscos, a disposição do governo nestes três meses de criar programas com custos fiscais reforçou a percepção de fragilidade do compromisso com a sustentabilidade", afirma o economista.
O resultado é um cenário onde, apesar de o fluxo primário apresentar números tecnicamente superiores, a percepção de risco permanece elevada.
O mercado, portanto, "vota" com o ceticismo: enxerga a melhora no primário, mas mantém as projeções de dívida estagnadas, sinalizando que a fragilidade do compromisso fiscal ainda pesa mais do que o ganho momentâneo de arrecadação.
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