O Questionário Pré-Copom (QPC), divulgado pelo Banco Central na quarta-feira (24), expôs um contraste nas expectativas do mercado financeiro em relação à economia brasileira: enquanto alguns indicadores numéricos de curto prazo apresentaram melhora, o pessimismo estrutural com as contas públicas ganhou força. O questionário é enviado aos participantes do Sistema Expectativas de Mercado antes de cada reunião do Copom (Comitê de Política Monetária).
De março a junho deste ano, o percentual de analistas que identificaram uma piora na situação fiscal do país entre as reuniões do Copom saltou de maneira expressiva, passando de 6% para 50%.
A aparente contradição nos dados levantou questionamentos imediatos sobre como essas percepções conversam dentro do cenário monitorado pela autoridade monetária.
De um lado, o documento mostra que as previsões do mercado para receitas e despesas foram revisadas para cima. Como a expectativa de arrecadação cresceu em um ritmo maior do que a de gastos, houve uma consequente melhora nas projeções de resultado primário.
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A melhora do lado das receitas foi impulsionada essencialmente por fatores conjunturais, como a perspectiva de maior arrecadação atrelada à alta nos preços do petróleo e ganhos nominais gerados pela própria revisão para cima das expectativas de inflação.
Segundo a leitura do mercado, não se tratam de ganhos estruturais sustentáveis para o resultado primário. Esse fator esvazia o otimismo gerado pelos números, um sentimento que é agravado pelo engessamento provocado pelo alto grau de indexação da despesa pública brasileira.
Do ponto de vista dos riscos, o foco dos analistas recai sobre a postura do Executivo. A disposição do governo ao longo destes últimos três meses de criar novos programas com custos fiscais, principalmente aqueles de natureza implícita, serviu como um catalisador para a desconfiança do mercado.
Para os especialistas, essas medidas reforçaram a percepção de fragilidade no compromisso com a sustentabilidade fiscal a longo prazo.
Além do cenário fiscal, o levantamento aponta que o conflito no Oriente Médio tornou-se uma preocupação central para a dinâmica inflacionária.
As instituições participantes estimam que as tensões geopolíticas na região terão um impacto de um ponto percentual no IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) de 2026.
A pressão sobre os preços, contudo, possui outras raízes. Segundo Leonardo Costa, economista do ASA, a trajetória inflacionária foi fortemente impactada por fatores climáticos.
“A piora das projeções de inflação para 2026 foi fortemente influenciada pelo comportamento dos preços de alimentos, especialmente os itens in natura. O aumento expressivo das expectativas reflete, em grande medida, os riscos associados ao fenômeno El Niño. Esse fator climático tem sido incorporado de forma relevante nas estimativas, tornando os alimentos o principal vetor de deterioração do cenário inflacionário para o ano”.
Costa ressalta que o mercado ainda vive um ambiente de incerteza: “Aproximadamente metade do impacto estimado do El Niño já foi incorporada às projeções de inflação para 2026 e 2027. Isso indica que, embora relevante, ainda pode haver espaço para revisões adicionais, dependendo da intensidade efetiva do fenômeno”.
O economista aponta ainda um movimento que preocupa o mercado sobre o custo do dinheiro.
“Observa-se uma elevação contínua das estimativas para a taxa de juros neutra por parte do mercado, sugerindo uma percepção de que o nível de juros necessário para equilibrar a economia pode ser mais elevado do que se estimava anteriormente”.
Por fim, o QPC indica que, para 2026, os riscos ao crescimento do PIB são vistos como equilibrados. No entanto, para 2027, o sentimento muda.
Como resume Costa: “Prevalece uma avaliação de riscos baixistas, sugerindo maior preocupação com a sustentação do crescimento no médio prazo, possivelmente em função de condições financeiras mais apertadas e menor impulso dos fatores cíclicos”.