O Fed (Federal Reserve, o banco central americano) anunciou ontem (29) a manutenção da taxa básica de juros dos Estados Unidos, cumprindo as expectativas do mercado.
O comunicado oficial da autoridade monetária não trouxe alterações em relação ao texto anterior. No entanto, a decisão revelou divisões internas no comitê de política monetária, que contou com três votos a favor de uma alta imediata de 0,25 ponto percentual.
Apesar da decisão em linha com o esperado, os holofotes se voltaram para a coletiva de imprensa conduzida pelo presidente do Fed, Kevin Warsh.
Em sua segunda entrevista à frente da instituição, o comandante do banco central adotou um tom interpretado como suave, desapontando analistas e investidores que esperavam uma postura mais firme.
A economista do ASA, Andressa Durão, avalia que o presidente do Fed teve uma mudança relevante de postura em comparação à sua estreia no cargo.
Segundo a economista, embora Warsh tenha tentado transparecer rigor institucional, sua fala na prática transferiu o peso do controle das condições financeiras para os agentes de mercado.
"Apesar de defender que o Fed não está recuando de suas responsabilidades e repetir a mensagem de que, quando for necessário e apropriado, não hesitará em agir, Warsh acabou transferindo a responsabilidade pela condução das condições financeiras para o próprio mercado, ao dizer que o recente aperto no período entre reuniões 'deu conforto' para o Fed.
Segundo ele, mesmo que o Fed não tenha feito 'muita coisa' nos últimos 42 dias, os mercados fizeram bastante."
Durante a conversa com os jornalistas, Warsh atribuiu a rapidez da reação dos preços dos ativos à estratégia de redução do forward guidance (as sinalizações prévias do banco central).
O presidente argumentou que a menor interferência do Fed permite que os preços de mercado reajam de forma mais direta e ágil aos indicadores econômicos.
No entanto, a economista do ASA destaca que o presidente da autoridade monetária relativizou o papel central da própria taxa de juros na busca da meta inflacionária:
"Warsh 'diminui' de alguma forma o protagonismo da taxa de juros, ao dizer que uma das maneiras de garantir que o Fed atingirá seus objetivos é assegurar que as expectativas de inflação estejam ancoradas, outra é demonstrar responsabilidade em alcançar a meta, e a terceira, 'igualmente importante e igualmente decisiva', são os instrumentos de política monetária."
A indicação de que o aperto praticado pelo próprio mercado financeiro e a melhora das expectativas seriam suficientes para segurar a inflação acabou soando como uma esquiva do Fed quanto a novos aumentos de juros.
De acordo com a especialista, Warsh acabou sugerindo que o aperto das condições financeiras e a melhora da dinâmica das expectativas de inflação diminuíram a necessidade de o Fed agir.
A mensagem, além de descredibilizar a instituição, também soa mais suave, já que, diante desse contexto, o presidente do Fed não demonstrou disposição para efetivamente elevar as taxas de juros.
Warsh complementou afirmando que, nos próximos meses, a instituição buscará refinar o diagnóstico sobre os choques econômicos atuais, utilizando a precificação dos ativos como termômetro e auxílio nesse processo decisório.
Projeção do ASA
Embora o tom de Kevin Warsh tenha indicado pouca disposição imediata para subir os juros, o ASA projeta que a deterioração ou permanência das pressões inflacionárias forçará o banco central norte-americano a retomar o ciclo de aperto no segundo semestre.
"Esperamos que o Fed precise aumentar a taxa de juros com duas altas consecutivas de 0,25 ponto percentual, a partir da próxima reunião, em setembro".
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