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Visão 360º: Geopolítica, PLDO 2027 e os desafios do cenário fiscal em abril

Conflito no Oriente Médio segue ditando as preocupações geopolíticas e contribuindo para um aumento da inflação pelo mundo
07 de abril de 2026

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Como chegamos até aqui

Os conflitos no Oriente Médio continuam a dar a tônica das preocupações geopolíticas e dos mercados financeiros, à despeito das afirmações iniciais do presidente americano Donald Trump de que a guerra chegaria rapidamente ao seu fim.

A sequência de eventos adversos dos últimos anos, bem como suas consequências de longa duração, enfraqueceu a narrativa de tratar choques de oferta como eventos temporários. Isso fez com que tanto os bancos centrais das economias avançadas quanto o mercado como um todo assumissem uma postura mais conservadora diante do evento.

Nos EUA, os dados de março seguem consistentes com atividade resiliente e mercado de trabalho sólido. Diante desse pano de fundo e do novo choque do petróleo, após um período prolongado de inflação acima da meta, o Federal Reserve tem reforçado a sinalização de manutenção de juros em território levemente restritivo por mais tempo.

No Brasil, a guerra já produz efeitos colaterais de longa duração, que mudaram de forma significativa o desenho das políticas monetária e fiscal esperadas para o ano.

O Copom deu início ao que chamou de ciclo de calibração da política monetária em ritmo inferior ao que havia sido sugerido na comunicação pré-guerra, com corte de apenas 0,25 pp em 18 de março. O Fed manteve os juros inalterados na mesma data.


Mitigação de danos

Desde o início dos conflitos, a política fiscal tem se concentrado na mitigação dos efeitos diretos da alta no preço do petróleo. Foi implementada uma série de medidas visando suavizar o aumento nos preços dos combustíveis, caso do GLP (gás de cozinha) e do querosene de aviação.

"Em que pese todo o esforço, nossa estimativa é a de que, no caso do diesel, ainda existe a necessidade de realizar um reajuste em torno de 15% para zerar a defasagem em relação ao preço internacional”, afirma Fabiano Zimmermann, head de fundos de renda fixa do ASA.

Segundo ele, um reajuste ainda maior seria necessário no caso da gasolina, com a diferença que neste caso a Petrobras tem maior margem de manobra para absorver ao menos parte da defasagem do preço doméstico.

As medidas anunciadas até o momento têm custo fiscal estimado superior a R$ 30 bilhões e seriam quase que totalmente custeadas pelo aumento do imposto de exportação de óleo.

“Com o dólar a R$ 5,20 e o preço do petróleo em torno de US$ 100/barril, estimamos que as receitas do governo têm aumento mensal em torno de R$ 3 bilhões/mês, o que, a princípio, seria capaz de fazer frente às despesas com subsídios”, avalia Zimmermann.

Entretanto, Zimmermann avalia que existe “risco não desprezível” de que no pacote de medidas sejam incluídos novos gastos que excedam a perspectiva de arrecadação, especialmente em um ambiente no qual o choque no preço do petróleo tem contribuído para a fragilização da aprovação do incumbente.

Nesse sentido, surgem propostas como um novo programa de renegociação de dívidas, implementado inicialmente no final de 2024. Outras medidas de natureza semelhante, como a liberação do FGTS, seguem em discussão.

“A situação fiscal do Brasil exige extrema cautela”, alerta Jeferson Bittencourt, head de macroeconomia do ASA.

No atual momento político e econômico do Brasil e do mundo, Bittencourt destaca que os sinais do sistema de preços tornam-se ainda mais importantes. Portanto, não deveria pairar dúvidas sobre os custos e os objetivos de medidas que, seja via imposto, seja via juros, a sociedade será chamada a pagar.

“Espera-se esta clareza nas medidas legais que serão apresentadas”, afirma Bittencourt.


O que vem aí

O governo federal se encaminha para a fase final de discussões do PLDO 2027 (Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias), que deve ser enviado ao Congresso até o dia 15 de abril.

A principal diretriz em debate é a manutenção da trajetória de recuperação das contas públicas, com uma meta de superávit primário projetada em 0,5% do PIB para 2027. No campo social e econômico, o PLDO 2027 projeta um salário-mínimo em torno de R$ 1.676,00, refletindo a política de valorização real.

Para viabilizar esse reajuste e acomodar novas legislações, como a recém-sancionada Lei Complementar 229/2026 (que ajustou gastos com licença-paternidade), o governo intensificou o “pente-fino” em benefícios previdenciários e assistenciais, como o BPC e o INSS.

A estratégia atual foca na revisão profunda dos gastos públicos e na modernização da fiscalização tributária, visando garantir que o aumento da arrecadação ocorra sem a necessidade de elevar a carga tributária geral, garantindo a sustentabilidade das políticas públicas no longo prazo.

Ainda neste mês temos uma nova “Super Quarta” com decisão de juros no Brasil e nos EUA em 29 de abril. O Copom deve repetir o corte de 0,25 pp, para 14,50%, enquanto o Fed deve manter as taxas básicas de juros americanas inalteradas mais uma vez.

Sobre os conflitos, o desfecho da guerra ainda é imprevisível e o nível de incerteza segue elevado.


Crédito privado

Março foi marcado por uma piora no mercado de crédito privado. Alguns emissores com níveis de endividamento mais elevados apresentaram abertura significativa de spreads, mesmo sem deterioração relevante de risco de solvência no curto e médio prazos.

Tanto os spreads dos papéis indexados ao CDI quanto os indexados ao IPCA abriram ao longo do mês, impactando negativamente a rentabilidade dos fundos. Os ativos com maior liquidez foram reprecificados de forma mais rápida, refletindo o movimento de mercado.

Os fundos com crédito privado na carteira registraram resgates, em linha com a volatilidade de captação observada nos últimos meses.

No mercado secundário, o volume de negociação permaneceu próximo à média recente, com leve aumento no caso das debêntures incentivadas. O mercado primário seguiu bastante parado, com grande parte das novas operações sendo absorvida pelos próprios bancos emissores.


Renda fixa

Foram realizadas 805.676 operações de investimento em títulos do Tesouro Direto em fevereiro, totalizando R$ 8,25 bilhões. Os resgates no período somaram R$ 3,6 bilhões, resultando em emissão líquida de R$ 4,65 bilhões. As aplicações de até R$ 1 mil representaram 51,7% das operações de investimento, com valor médio de R$ 10.242,74 por operação.

Fevereiro marcou o início das vendas do Tesouro Reserva, ainda em período de testes, que é um título indexado à taxa Selic e sem marcação a mercado, disponível para negociação 24 horas por dia, inclusive nos finais de semana e feriados, com valores a partir de R$ 1,00.

O grupo de títulos mais demandado pelos investidores foi o indexado à taxa Selic (Tesouro Selic e Tesouro Reserva), que somou R$ 4 bilhões (49% das vendas).


Renda variável

A primeira prévia da nova carteira do Ibovespa, que entra em vigor em maio, conta com 79 papéis de 76 empresas brasileiras. A prévia, com base no fechamento do pregão de 30 de março, registra as saídas das ações AXIA7 (Axia Energia PNC), CYRE4 (Cyrela Realty PN), IRBR3 (IRB Brasil ON) e RENT4 (Localiza PN).

Os cinco ativos com maior peso na composição do índice na primeira prévia são: Vale ON (11,571%), Petrobras PN (8,528%), Itaú Unibanco PN (8,418%), Petrobras ON (4,280%), Axia Energia ON (4,083%).


Imposto de renda

O prazo para entrega das declarações do Imposto de Renda Pessoa Física (IRPF) começou em 23 de março e vai até 29 de maio. As funcionalidades de entrega e transmissão, juntamente com as informações da declaração pré-preenchida, estão disponíveis no site da Receita Federal.

Para declaração de ativos listados na bolsa brasileira, os investidores podem usar o ReVar, um programa de apuração do Imposto de Renda da pessoa física incidente sobre operações de renda variável.

A calculadora é gratuita e a autorização para compartilhamento dos dados com a Receita Federal ocorre por meio da Área do Investidor da B3. O acesso ao serviço é hospedado no portal e-CAC da Receita Federal.

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