A cada 45 dias, o Copom (Comitê de Política Monetária) se reúne para decidir a taxa básica de juros no intuito, principalmente, de levar a inflação à meta. Mas não só.
De forma geral, a autoridade monetária trabalha para encontrar a chamada taxa neutra: aquela que nem acelera e nem desacelera a economia. O juro neutro dos sonhos também deixaria a atividade próxima do pleno emprego e estimularia o crescimento sustentável.
"Quando os juros reais estão acima do neutro, a tendência é de desaceleração da demanda e redução das pressões inflacionárias, o oposto ocorre quando estão abaixo. O desafio é que essa taxa não é observável diretamente e muda ao longo do tempo conforme mudam as características estruturais da economia", explica o economista do ASA, Leonardo Costa.
Mas vamos voltar algumas casas para entender melhor a taxa neutra. Para isso, é preciso entender o conceito de PIB potencial.
O PIB potencial representa a capacidade sustentável de produção de uma economia sem gerar inflação persistente. Esse crescimento potencial depende de fatores como produtividade, estoque de capital, qualificação da mão de obra, demografia e ambiente de negócios.
O economista explica que a diferença entre o PIB efetivo e o potencial, chamada hiato do produto, é uma das principais variáveis monitoradas pelos bancos centrais para calibrar a Selic.
Mas, assim como o juro neutro, o PIB potencial também não é observável e precisa ser estimado.
Isso significa que ele não pode ser medido diretamente por nenhum termômetro econômico, exigindo que os economistas usem cálculos e modelos matemáticos para tentar chegar ao número exato da capacidade máxima de produção da economia, o que dá abertura para margem de erro e debate.
"Nas últimas décadas, a maior parte das economias avançadas observou queda das estimativas de juro neutro, refletindo envelhecimento populacional, menor crescimento da produtividade e aumento da poupança global", conta Costa.
Após a pandemia, surgiu o debate sobre uma possível mudança dessa tendência, mas a evidência internacional ainda é inconclusiva. O próprio Banco Central destaca que não existe um padrão único entre os países: alguns registraram aumento da taxa neutra, outros estabilidade e outros redução.
No Brasil, há uma especificidade: o principal diferencial brasileiro está no fiscal.
"A literatura revisada pelo BC aponta que maior endividamento público e aumento da percepção de risco tendem a elevar a taxa de juros de equilíbrio da economia".
Por isso, explica o economista, a discussão sobre juro neutro no Brasil acaba sendo também uma discussão sobre credibilidade fiscal. Não por acaso, o Banco Central tem dedicado diversos boxes dos Relatórios de Inflação e dos Relatórios de Política Monetária ao tema, enfatizando tanto a importância quanto a elevada incerteza dessas estimativas.
A estimativa de juro neutro subiu de cerca de 3% para 4,5% no período pós-pandemia, um movimento mais intenso do que o observado em grande parte das economias avançadas.
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