Macroeconomia

Outubro: eleições chegam ao fim, inflação segue gerando rugas e 2027 se aproxima mais

A partir de agora, cada movimento na Bolsa, cada oscilação do dólar, cada movimento dos juros longos responde principalmente a uma pergunta: quem será o próximo presidente? Historicamente, é nesse intervalo entre o primeiro e o segundo turno que a disputa se acirra e o mercado mostra mais volatilidade
06 de outubro de 2026

Essa é a edição de setembro da newsletter Visão 360º do ASA. Nosso conteúdo mensal para você ficar por dentro das informações mais relevantes do mercado financeiro e do cenário econômico. Assine aqui.


Como chegamos até aqui

Com a entrada oficial no quarto trimestre, 2026 já traça um retrato de si mesmo: um mercado de trabalho que resiste mesmo sob pressão; eleições que redefinem não apenas lideranças mas também os rumos econômicos futuros; e bancos centrais navegando cuidadosamente por um cenário inflacionário repleto de surpresas.

O mercado de trabalho dos Estados Unidos se mostrou mais fraco do que o esperado. Em setembro, apenas 29 mil novas vagas foram criadas, um número que decepcionou quem esperava 90 mil postos de trabalho, especialmente quando acompanhado por revisões para baixo nos meses anteriores. Mesmo com essa desaceleração clara na geração de postos e na dinâmica salarial, a leitura é que o cenário ainda está longe de um colapso.

A história, porém, tem mais nuances quando olhamos setores específicos: enquanto governo estadual e local contraíram, construção, indústria e comércio tiveram momentos de respiro. A taxa de desemprego subiu modestamente de 4,1% para 4,2%, impulsionada principalmente pelo aumento de pessoas voltando ao mercado de trabalho.

"A alta do desemprego foi marginal e acompanhada pelo aumento da participação, enquanto as médias recentes de emprego permanecem positivas. Para o Fed, o resultado reforça a possibilidade de manutenção dos juros em outubro", avalia Leandro Padulla, economista do ASA.

No Brasil: resiliência com sinais de fadiga

O mercado de trabalho brasileiro segue exibindo músculos, mas o cansaço começa a aparecer nos sinais. A população ocupada atingiu um recorde: 103,5 milhões de pessoas. A taxa de desemprego se mantém estável em 5,5%, o menor desde o começo da série histórica.

O detalhe preocupante, porém, vem da remuneração. A massa salarial efetiva acumula seis meses consecutivos de queda, um sinal vermelho de que o motor do consumo doméstico está perdendo potência.

"A população ocupada avançou apenas 0,1% em agosto, consolidando uma desaceleração gradual na geração de empregos. No lado da renda, o quadro merece atenção redobrada. Quando você combina a criação mais lenta de vagas com a acomodação dos salários reais, o resultado é claro: o mercado de trabalho está impulsionando menos o consumo das famílias", explica Leonardo França Costa, economista do ASA.

Segundo ele, o cenário recente é consistente com uma desaceleração suave da economia, sem sinais de desastre iminente. Mas a perda de fôlego na criação de vagas e a contração consecutiva dos salários pedem vigilância sobre como o consumo se comportará nas próximas semanas.

Já o IPCA deve deixar essa história de deflação para trás. O IPCA-15 (Índice de Preços ao Consumidor Semanal) de setembro registrou uma aceleração significativa, marcando 0,70%, bem acima da projeção de 0,61% do ASA e da mediana de 0,55% divulgada pelo Broadcast.

A leitura inverteu a tendência de agosto, que havia apontado deflação de -0,40%. Com o resultado, a inflação acumula 3,82% no ano e 4,47% em 12 meses, ante 4,24% no período anterior.

Além disso, a projeção do ASA para o IPCA de setembro foi revista para 0,72%, ante projeção anterior de 0,61%.

"A surpresa de alta concentrou-se em alimentação no domicílio, com destaque para carnes e itens in natura, além de leituras mais fortes em energia elétrica e gasolina", avalia Costa.

O novo presidente já vai ter um desafio te esperando em 2027: segundo o head de macroeconomia do ASA, Jeferson Bittencourt, equilibrar o crescimento das despesas obrigatórias, que é definido por regras constitucionais e cresce, hoje, em ritmo mais acelerado.

Por outro lado, o limite do arcabouço fiscal é um número que pode ser alterado de uma maneira simples pelo Congresso, por lei ordinária.

“A grande dificuldade está no crescimento das despesas obrigatórias. Para eu mudar a regra de acesso da Previdência, para eu mudar a indexação dos mínimos da saúde e educação, isso só com a Constituição”, afirmou.

LEIA TAMBÉM: Eleição, Congresso e agenda institucional dominam as próximas semanas

O mapa de outubro: por onde começar

A partir de agora, cada movimento na Bolsa, cada oscilação do dólar, cada movimento dos juros longos responde principalmente a uma pergunta: quem será o próximo presidente? Historicamente, é nesse intervalo entre o primeiro e o segundo turno que a disputa se acirra e o mercado mostra mais volatilidade.

Passada a eleição, o que realmente define como os mercados abrem suas posições em novembro é a sinalização inicial sobre quem compõe a nova liderança econômica: quais perfis, quais históricos, qual visão de Brasil esses nomes trazem consigo. Essas escolhas desenharão o tom da abertura dos mercados e definirão como o Brasil inicia sua travessia rumo a 2027.

No cenário internacional, todos olham para o Federal Reserve calibrando sua resposta a um mercado de trabalho mais frágil. As expectativas sobre mais cortes de juros ganham força nas apostas globais.

A eleição de meio de mandato americana também se aproxima de seu clímax, testando apoios e revelando quais agendas econômicas ressurgem com força.

Mercados em estado de alerta

Setembro deixou rastros de volatilidade nos mercados globais, com investidores reagindo a sinais contraditórios sobre crescimento e política monetária.

Em coletiva de imprensa realizada após o anúncio da decisão de cortar juros nos Estados Unidos, o presidente da autoridade monetária, Kevin Warsh, destacou que a convergência de votos entre os membros do comitê reflete a determinação da autoridade monetária em alcançar a estabilidade de preços de forma oportuna.

Na avaliação de Andressa Durão, economista do ASA, a combinação entre a unanimidade do comitê, o gráfico de pontos e o reajuste nas projeções macroeconômicas completa um quadro predominantemente agressivo.

Para a economista, o anúncio confirma que o Banco Central americano adotou uma postura mais firme na busca pela estabilidade de preços ao projetar uma trajetória de juros mais elevada do que o mercado projetava anteriormente.

Por aqui, o Ibovespa encerrou setembro com valorização de 5,03%, registrando seu melhor desempenho mensal desde janeiro.

O desempenho de setembro ajudou a consolidar um terceiro trimestre positivo para a Bolsa. Entre julho e setembro, o Ibovespa acumulou valorização de 8,32%, ampliando para 15,65% o ganho registrado desde o início do ano.

LEIA TAMBÉM: Perda de arrecadação com fim das bets pode superar R$ 15 bi em 2027

Usamos dados pessoais e cookies para analisar o uso de nosso site, direcionar conteúdos e anúncios personalizados e aprimorar a sua experiência. Ao continuar navegando, você concorda com a nossa política de privacidade e política de cookies.