Os desdobramentos práticos do atual cenário macroeconômico para os preços de ativos e a alocação de portfólio sintetizam em três implicações fundamentais e interligadas, conforme destacou Rogério Freitas, head de investimentos do ASA, durante a Expert XP 2026.
A primeira implicação recai diretamente sobre a precificação dos ativos.
"Diante de um panorama em que as taxas de juros permanecem elevadas por mais tempo, no mínimo até o período eleitoral, com probabilidade de se estender pelos próximos quatro anos, a taxa de desconto aplicada aos investimentos sofre uma elevação", diz Freitas.
Ele explica que, como consequência da alta da Selic, o valor do fluxo de caixa dos ativos diminui, exercendo pressão não apenas sobre as empresas listadas em bolsa, mas sobre toda a economia doméstica, o que torna os ativos brasileiros nominalmente mais baratos.
O segundo ponto envolve a deterioração macroeconômica e o risco estrutural de dominância fiscal. A continuidade de uma política de expansão ou indisciplina fiscal projeta a dívida pública em uma trajetória ascendente de "três a quatro pontos percentuais do PIB ao ano".
"Partindo do patamar atual de 80% a 83%, a dívida pode atingir 100% até o final do próximo governo configurando um quadro que exige um ajuste fiscal da mesma magnitude".
No entanto, ele explica, devido ao engessamento orçamentário, onde menos de 10% corresponde a gastos discricionários, medidas pontuais acabam se tornando inócuas, exigindo do mercado um choque real de credibilidade.
O maior perigo desse descontrole é a transição para a dominância fiscal, na qual a política monetária perde eficácia e a alta dos juros gera efeitos colaterais adversos, como a desvalorização cambial e a pressão inflacionária.
Como evidência dessa tensão, "o Tesouro encontrou dificuldades para emitir títulos pré-fixados e indexados à inflação, resultando em uma dívida concentrada em mais de 50% em papéis pós-fixados", o que compromete o investimento corporativo, a produtividade e o crescimento do PIB.
A terceira implicação se reflete na reorganização estratégica da alocação de portfólio. Com uma economia marcada por baixo crescimento, produtividade comprimida e juro real elevado, o arranjo ideal se inclina predominantemente "para a renda fixa, em detrimento da renda variável".
"Num ambiente de política fiscal expansionista, a taxa de juros real de equilíbrio permanece em patamares elevados, atualmente ao redor de 10%, com a curva de juros negociando próxima a 8%", explica o head do ASA.
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