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Como chegamos até aqui
Com setembro abrindo as portas, o terceiro trimestre de 2026 oficialmente chega ao fim. A foto do período mostra, principalmente, uma economia brasileira em desaceleração; inflação que se recusa a respeitar as metas traçadas pelas autoridades monetárias; e um tabuleiro político mais polarizado, conforme se a eleição presidencial se aproxima.
Lá fora, o Federal Reserve, banco central americano, mantém um tom cauteloso após sinais de inflação mais persistente do que esperado. Na ata divulgada em agosto, ficou evidente que membros do comitê americano divergem sobre o ritmo das próximas decisões de juros, com alguns defendendo manutenção das taxas enquanto outros sinalizam cautela na redução.
O presidente Kevin Warsh, em sua estreia em Jackson Hole, por sua vez, não ofereceu orientações futuras claras, transferindo o mercado a tarefa de antecipar os próximos passos.
Segundo a economista do ASA, Andressa Durão , "historicamente, movimentos muito expressivos nos juros de curto prazo são mais exceção do que regra nos dias de simpósio, já que muitos discursos têm caráter mais estrutural".
No Brasil, a inflação também ganhou espaço na agenda do Banco Central. O IPCA registrou deflação em agosto, movimento que gerou expectativas de possíveis cortes na Selic.
Na última reunião do Copom, o colegiado manteve a estratégia de flexibilização gradual. Porém, a melhora pontual nos preços não se traduziu automaticamente em confiança entre agentes econômicos quanto ao controle inflacionário nos horizontes relevantes para política monetária.
Os dados do PIB de agosto reforçam preocupações com o ritmo da atividade econômica. Na comparação com o último ano, a economia avançou apenas 2%, enquanto o acumulado em quatro trimestres ficou em 1,9%. O principal destaque negativo foi a contração de 0,4% no consumo das famílias, sinalizando perda de tração nos componentes mais sensíveis ao ciclo doméstico.
"Embora o resultado cheio tenha vindo em linha com nossa projeção, a composição foi qualitativamente mais fraca. Os segmentos mais sensíveis ao ciclo econômico doméstico continuam perdendo dinamismo, enquanto agropecuária e extrativa seguem sustentando parte relevante do crescimento", explica Leonardo França Costa, economista do ASA.
Para ele, a desaceleração da atividade é evidente, mas de forma gradual ao longo de 2026, com os indicadores antecedentes sugerindo que essa fraqueza já está entrando no terceiro trimestre de 2026.
Atualmente, o ASA projeta crescimento de 0,2% no terceiro trimestre, em comparação com o anterior, com o PIB de 2026 sendo revisto para +1,8% (de +2,0%), e +1,5% em 2027.
No cenário político, ambos os países se voltam às eleições: nos Estados Unidos, a expectativa é pelo teste do apoio presidencial antes do pleito. No Brasil, a campanha presidencial oficial abriu a porta para maiores definições sobre agendas econômicas dos candidatos.
Brasília no foco
O cenário legislativo brasileiro se concentrou em pautas críticas entre final de agosto e início de setembro, com o governo buscando aprovar matérias enquanto o calendário de campanha ganha tração total. As votações tendem a perder espaço diante da intensificação da campanha eleitoral.
A semana de votações entre final de agosto e início de setembro marcou a aprovação do fim da jornada 6x1 na CCJ do Senado (mas não chegou ao plenário); da MP das "blusinhas" (tributação de remessas pessoais de importação); da PEC de Segurança Pública; e do Marco dos Minerais Críticos (aprovado no Senado, agora segue para sanção). Todas essas matérias enfrentam prazos e dinâmicas políticas distintas.
A MP das blusinhas, por exemplo, perde validade em 8 de setembro se não for convertida em lei, pressionando votação rápida. Outras propostas, como o Redata (regime tributário para data centers), ficam mais sensíveis às vésperas da eleição.
Na agenda regulatória, o CNPS (Conselho Nacional da Previdência Social) discute tetos de juros para crédito consignado, enquanto o governo trabalha na sanção de legislação relacionada ao piso mínimo do frete, buscando aliviar pressões inflacionárias sobre transportes.
Conforme avalia Jeferson Bittencourt , head de macroeconomia do ASA, "a atenção estará no conteúdo final e na velocidade de tramitação: a MP das blusinhas perde validade em 8 de setembro, enquanto as demais propostas podem avançar como vitrines políticas às vésperas da eleição".
Para onde olhar em setembro
Em setembro, a agenda macroeconômica doméstica segue abrindo espaço para sinais sobre a trajetória da inflação e do emprego. Os dados de inflação ao consumidor e a atividade laboral testarão a resiliência da economia brasileira diante de um ambiente de juros ainda restritivo. A ata do Copom de setembro oferecerá leitura fresca sobre as próximas decisões de política monetária do Banco Central.
A atenção especial recai sobre o PLOA (Projeto de Lei Orçamentária) de 2027, que não pode ser separado da entrada em vigor da CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) e do Imposto Seletivo no próximo ano.
"A programação orçamentária precisa trazer estimativas de arrecadação compatíveis com a legislação que regerá os novos tributos, enquanto o governo ainda terá de calibrar alíquotas, especialmente do Seletivo. A equipe econômica tem sinalizado preferência por preservar aproximadamente a carga dos setores hoje alcançados pelo IPI, reduzindo resistência política. Esta estratégia, contudo, pode implicar uma alíquota maior de CBS, a ser conhecida mais semanas à frente", analisa Bittencourt.
A decisão sobre continuação ou fim dos subsídios de combustível ganha peso, impactando tanto a inflação quanto a trajetória fiscal do governo. Com consumo de 25-30 milhões de litros/dia e subsídio de R$ 0,44 por litro, o custo mensal atinge R$ 8-9 bilhões. Decisões sobre combustíveis são decisões sobre inflação: mantê-los reduz pressão de preços, removê-los a aumenta.
No cenário internacional, Jackson Hole ainda domina conversas sobre política monetária americana. Com Warsh evitando orientações futuras explícitas, as entrevistas de outros membros do Fed ganham relevância redobrada para orientar expectativas do mercado. A possibilidade de cortes em setembro permanece central nas apostas globais.
A campanha presidencial, agora oficial, começa a expor as agendas econômicas dos principais candidatos. Conforme observam analistas do ASA, o mercado aguarda maior definição sobre sustentabilidade da dívida pública, desenho das metas fiscais futuras, tributação e role das estatais nos próximos anos.
Bolsa e dólar vigilantes
Agosto trouxe desalento ao mercado acionário brasileiro, encerrando o mês com queda de 0,33%, fechando aos 177.418 pontos. Apesar das expectativas de recuperação alimentadas pela deflação do IPCA e perspectiva de continuidade nos cortes de juros, o Ibovespa não conseguiu manter tração.
A retirada de capital estrangeiro, totalizando R$ 185 bilhões que saíram do mercado, revelou ceticismo entre investidores internacionais quanto ao cenário econômico e político brasileiro. A desaceleração da atividade econômica, evidente nos dados de PIB e consumo das famílias, pesou nas decisões de alocação de recursos em ativos de risco.
O câmbio, por sua vez, seguiu a trajetória de desconfiança com relação aos ativos brasileiros. O dólar apresentou descompressão frente ao real durante agosto, movimento que refletiu tanto a perda de força da moeda americana no contexto global, com indicadores de inflação nos EUA abaixo do esperado, quanto a busca por segurança entre investidores que reduziam sua exposição ao Brasil. A saída volumosa de capital estrangeiro funcionou como contrapeso à queda nominal do dólar, mantendo a divisa americana em patamares resilientes.
Para onde olhar
O mercado de crédito privado em agosto exigiu dos investidores uma análise maior do que a avaliação superficial de ratings e números de balanço. Segundo Thais Prado, head de fundos de crédito privado do ASA, "rating e alavancagem atual são apenas o ponto de partida" para uma decisão de investimento verdadeiramente informada.
A avaliação estática de uma empresa é insuficiente diante de um cenário macroeconômico mais desafiador, onde reviravoltas estruturais podiam ocorrer rapidamente. Perigos reais não aparecem de deteriorações previsíveis, mas de mudanças abruptas, como aquisição que eleva repentinamente a alavancagem, discussões sobre renovação de concessões trazendo novos riscos regulatórios, ou a deterioração de uma controladora contaminando subsidiárias aparentemente saudáveis.
"Em crédito high grade, empresas podem piorar aos poucos mas quando isso acontece de forma gradual, normalmente elas deixam de ser high grade muito antes de chegar a uma inadimplência, dando ao gestor a oportunidade de reduzir ou sair da exposição".
A diferenciação entre bons e excelentes gestores está justamente na capacidade de identificar esses riscos ocultos antes que se materializassem. Em um mercado pré-eleitoral, com volatilidade elevada e prêmios de risco amplos, a seletividade baseada em análise profunda se torna diferencial crítico.
No mercado de título público, os títulos atrelados à inflação em horizontes estendidos de aplicação têm performance maior, em comparação com o CDI.
"Imagine R$100 aplicados do mesmo jeito nas duas opções: um seguindo o CDI e o outro em um título de juro real. Dez anos depois, o CDI teria virado R$ 265. Já o juro real chegaria a R$ 334. São mais de setenta reais de diferença, e os dois começaram exatamente no mesmo ponto. Historicamente tem sido assim", explica Tarciso Gouveia, especialista de investimentos do ASA.