Setembro marcou a fase decisiva no calendário político. Até então, o Congresso manteve um ritmo legislativo próprio, mas agora o foco se volta intensamente para a reta final da campanha eleitoral, desacelerando o andamento de novas pautas em Brasília sem paralisar totalmente as atividades.
À medida que nos aproximamos de outubro, o mercado não monitora apenas o desfecho das urnas, mas também aguarda definições cruciais em três frentes principais: os detalhes do pacote de medidas econômicas do governo; a expansão do Bolsa Família; e o lançamento do Desenrola 3.0.
Cada uma dessas iniciativas sinaliza prioridades fiscais e sociais, desenhando o cenário que o próximo governo herdará a partir de 2027.
O resultado prático dessa equação: resolvida a eleição em outubro, a agenda do país migra imediatamente para o planejamento da transição e os rumos da economia para o próximo ano.
O pacote do governo
O anúncio e o detalhamento do novo pacote econômico liderado pela equipe de governo funcionaram como o termômetro das intenções fiscais para a reta final da gestão. O mercado se debruça sobre a qualidade das propostas: busca entender se o foco recai sobre cortes estruturais de despesas ou se há novas rodadas de criação de receitas.
Qualquer desvio que comprometa a credibilidade do arcabouço fiscal gera repercussão imediata na curva de juros futuros e nos prêmios de risco dos ativos locais.
"O próximo presidente precisa mostrar que está disposto a enfrentar as questões estruturais do ajuste fiscal. E isso depende de desvinculação e desindexação de despesas. Além disso, será necessário apertar as regras para que os cidadãos acessem benefícios previdenciários e assistenciais. Também é necessário buscar eficiência e racionalidade na concessão de benefícios tributários. Qualquer pacote que combine essas ações traz ganhos de expectativa de curto prazo”, diz Jeferson Bittencourt, head de macroeconomia do ASA.
Bolsa Família e Desenrola 3.0
O Bolsa Família manteve o valor base fixado em R$ 600, operando de forma integrada com os adicionais do Benefício Primeira Infância (R$ 150 para crianças de zero a seis anos) e do Benefício Variável Familiar (R$ 50 para gestantes e jovens de sete a dezoito anos).
O foco da gestão federal se concentra na fiscalização do cumprimento das condicionalidades de saúde e educação, atreladas à exigência de regularidade cadastral no CadÚnico para mitigar fraudes e controlar a fila de concessões.
No caso do Desenrola 3.0, a União vai comprar em leilão carteiras de dívidas bancárias e não bancárias de até R$ 10 (valor original), vencidas entre dois e quatro anos e meio. O deságio mínimo é de 90% e será todo repassado ao devedor, que pode parcelar ou quitar à vista.
Poderão ser compradas até R$ 150 bilhões em dívidas (provavelmente em três parcelas de R$ 50 bi). O custo máximo é de R$ 15 bilhões, primário e sujeito às regras fiscais, nos Orçamentos de 2027 e 2028. Até 15 milhões de beneficiários; os critérios de renda sairão em ato da Fazenda.
"O governo trata o programa como modalidade do Desenrola para afastar a vedação eleitoral", explica Bittencourt.
O fim das bets
O governo federal editou a Medida Provisória que determina o encerramento das operações das casas de apostas esportivas e de jogos online (as bets) em todo o território nacional.
Com a nova norma, que já está em vigor, ficam proibidos novos depósitos financeiros nas plataformas, além de ações de publicidade e patrocínios vinculados ao setor, o que afeta diretamente os contratos de diversos clubes de futebol.
As autorizações anteriormente concedidas pelo Ministério da Fazenda a dezenas de empresas serão extintas em um prazo de 30 dias. Para operacionalizar a saída do mercado, o cronograma oficial estabelece que os apostadores têm até o dia 5 de outubro para realizar o saque voluntário de seus saldos diretamente nas plataformas.
A partir de 6 de outubro, os sites e aplicativos devem ficar indisponíveis no país, enquanto as instituições financeiras e a Caixa Econômica Federal atuarão na repatriação e devolução dos valores remanescentes vinculados aos CPFs dos usuários.
Paralelamente, o Executivo enviou ao Congresso Nacional um projeto de lei complementar para tipificar criminalmente a exploração irregular dessa atividade, ao passo que entidades representativas do setor acionaram o ST (Supremo Tribunal Federal) contestando a interrupção.
Outubro vem aí
Com a virada do mês, a dinâmica de mercado sofre uma inflexão. A partir de outubro, a economia real dá espaço de tela para a alta volatilidade política, transformando as projeções macroeconômicas em função direta das expectativas em torno das urnas e da governabilidade futura.
Os preços dos ativos financeiros, da taxa de câmbio à bolsa, passando pelos vértices longos da curva de juros, passam a ser guiados quase que exclusivamente pelas probabilidades associadas a cada candidatura.
As pesquisas de intenção de voto deixam de ser apenas objeto de curiosidade passam a ser traduzidas em modelos quantitativos de precificação de prêmio de risco. O mercado tenta antecipar qual será a orientação macroeconômica, o grau de compromisso com a responsabilidade fiscal e a capacidade de articulação política do futuro ocupante do Palácio do Planalto.
Um dos pontos de maior atenção e cautela para os estrategistas é a janela crítica entre o primeiro e o segundo turno da eleição. Historicamente, é nesse intervalo de acirramento da disputa que se concentra perigo para o fiscal.
Por fim, encerrado o pleito em outubro, o foco deve migrar para a capacidade de articulação da equipe de transição e para os primeiros acenos do presidente eleito.
Mais do que o nome do vencedor, a reação dos mercados dependerá da sinalização inicial quanto à composição da nova equipe econômica.
A escolha dos perfis definirá o tom da abertura dos mercados em novembro e como o Brasil iniciará a travessia rumo a 2027.