No mês passado, uma constante acendeu o sinal de alerta no mercado: a elevação contínua das expectativas de inflação para 2028 dentro do Relatório Focus, do Banco Central, que encerrou o período em 3,66%.
Quando o BC mexe nos juros hoje, o impacto real dessa decisão demora meses para ser sentido na economia real, o chamado "horizonte relevante", cujo alvo principal passa a ser, gradativamente, o ano de 2028.
Se o mercado começa a projetar uma inflação mais alta lá na frente, significa que a confiança na ancoragem das metas está sob teste.
Segundo Fabiano Zimmermann, head de renda fixa do ASA, o cenário doméstico recente foi marcado por um forte cabo de guerra.
De um lado, a atividade econômica mostrou uma força surpreendente, mas, de outro, os sinais vitais da inflação de longo prazo começaram a incomodar.
"No âmbito doméstico, experimentamos uma combinação de choques: um choque de oferta, decorrente do preço do petróleo que tem impactado a economia desde março, e um choque de demanda, derivado da implementação de vários programas fiscais. O resultado tem sido o de potencializar a pressão inflacionária", explica Zimmermann.
O head de renda fixa do ASA ressalta que o fato de o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) continuar surpreendendo positivamente acaba cobrando o seu preço na inflação de longo prazo.
Quando o mercado percebe que a inflação de 2028 está subindo e o cenário fiscal segue expansionista, o retorno pelo risco sobe.
Em maio, por exemplo, a maior parte da aversão ao risco acabou sendo absorvida pelo mercado de juros reais (os títulos públicos indexados ao IPCA). Diante de tantas incertezas institucionais e políticas, a estratégia da gestão foi de cautela e proteção.
Leia também: Mercado aponta Selic maior do que o esperado no fim do ano