O IPCA qualitativo tem um papel importante na análise econômica ao diferenciar os componentes mais ou menos voláteis.
Do ponto de vista da política monetária, a atenção se volta para os itens sensíveis à atividade doméstica, a exemplo dos serviços subjacentes e das medidas de núcleo.
Por outro lado, uma fatia significativa do índice é formada por preços altamente voláteis, como combustíveis e alimentos, que sofrem influência de fatores climáticos e oscilações internacionais do petróleo, por exemplo.
Esses choques de oferta e demanda ocorrem muitas vezes de maneira desvinculada do ritmo interno da economia brasileira.
Conforme pontuou o economista do ASA, Leonardo Costa, esses itens "tendem a refletir melhor o grau de aquecimento da economia, a dinâmica do mercado de trabalho e a persistência inflacionária, razão pela qual costumam ser acompanhados de perto pelo Banco Central na definição da taxa de juros".
Apesar de uma leitura benigna dos núcleos ser vista com bons olhos pelas autoridades monetárias, essa avaliação não pode ser feita de forma isolada no cotidiano dos mercados.
Isso acontece porque choques em itens voláteis possuem o potencial de desencadear os chamados efeitos secundários, contaminando gradualmente os demais preços da economia.
O repasse de custos e a alteração nas expectativas podem fazer com que uma alta pontual de gêneros alimentícios acabe pressionando o setor de serviços ao longo do tempo.
"A intensidade dessa transmissão depende do estágio do ciclo econômico. Em uma economia mais aquecida, empresas tendem a repassar com maior facilidade os aumentos de custos, ampliando os efeitos secundários. Em um ambiente de atividade mais fraca, a capacidade de repasse costuma ser menor".
Além disso, as transformações nos padrões de consumo observadas no período pós-pandemia tornaram a separação entre componentes cíclicos e não cíclicos menos evidente do que em ciclos passados.
Portanto, avalia o economista do ASA, embora a análise qualitativa seja um instrumento valioso para analisar a tendência inflacionária subjacente, ela não anula nem substitui a leitura atenta do índice cheio.
A formulação da política monetária precisa ponderar os sinais emitidos pelos núcleos conjuntamente com o risco de contágio dos choques de oferta.
Não à toa, o cumprimento da meta oficial de inflação é balizado pelo IPCA em sua totalidade, e não de forma fragmentada apenas por seus componentes desagregados.
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