Macroeconomia

Chegada do El Niño coloca Brasil em alerta para inflação recorde

Leonardo Costa, economista da ASA, analisa riscos do fenômeno climático na economia brasileira
10 de setembro de 2026

Com uma temperatura oceânica que pode atingir cinco graus acima do máximo histórico, quase o dobro do último recorde, o Brasil enfrenta um cenário de incerteza considerável sobre o que promete ser o ano mais forte dos registros de El Niño.

O fenômeno ameaça pressionar a inflação em níveis ainda não vivenciados. A avaliação é de Leonardo Costa, economista do ASA.

"Como a gente está entrando num campo desconhecido, que é o El Niño mais forte da série histórica, você tem obviamente um risco muito grande e é um risco assimétrico para mais inflação".

A comunidade econômica trabalha com diferentes modelos de projeção para entender os impactos dessa anomalia climática, mas o consenso é que 2026 e 2027 serão anos de pressão inflacionária considerável.

Prever com precisão os impactos do El Niño, no entanto, é uma tarefa difícil, já que existem 150 modelos climáticos diferentes que produzem resultados bastante distintos.

As projeções variam de um a cinco graus de aumento na temperatura oceânica, uma amplitude que torna a modelagem econômica particularmente complexa.

Para contornar essa incerteza, os economistas utilizam duas abordagens distintas. A primeira classifica o fenômeno em três categorias: El Niño fraco, moderado e forte, passando a análise para o campo qualitativo em vez de quantitativo.

A segunda abordagem utiliza dados precisos de temperatura oceânica, mas enfrenta enorme incerteza na projeção desses dados.

De acordo com Costa, um dos modelos funciona como um "interruptor de luz": se há cinco graus a mais ou sete graus a mais de temperatura, o resultado final não se altera significativamente, permitindo maior estabilidade nas projeções.

A maior preocupação está na inflação de alimentos, que é projetada em 6,5% para 2026 e 5,3% para 2027, ambas significativamente acima da inflação corrente.

Esse impacto, de acordo com o economista, será sentido principalmente entre o quarto trimestre de 2026 e o primeiro e segundo trimestres de 2027, com normalização esperada apenas no final de 2027.

A questão central é que, dessa vez, diferentemente de 2015, não há uma depreciação cambial significativa amplificando os efeitos. A projeção é que o câmbio fique em torno de R$ 5,25 para este ano, o que torna o impacto mais contido, mas ainda considerável.

A referência a 2015 é comum nas análises feitas por especialistas. Naquele ano, quando houve um El Niño forte acompanhado de uma desvalorização do câmbio muito forte, os resultados foram significativos.

Tubérculos subiram 40%, frutas 15%, hortaliças 20%, e a inflação de alimentos daquele ano atingiu 16%.

"Essa intensidade do câmbio pode colocar lenha a mais nessa fogueira. Por enquanto, a gente ainda está trabalhando com um cenário de câmbio relativamente equilibrado", afirmou Costa, sugerindo que, sem essa "lenha a mais" cambial, ainda há a esperança que o impacto desta vez seja mais moderado.

Além da alimentação, o El Niño ameaça o fornecimento de energia elétrica, com potencial para pressionar ainda mais a inflação. Os modelos atualizados indicam que setembro e outubro terão chuvas acima da média, mas novembro e dezembro apresentarão queda nas precipitações.

De janeiro a março de 2027, haverá um período bastante seco, especialmente no Norte, Nordeste e Centro-Oeste, exatamente as regiões responsáveis por uma parte significativa da geração de energia hidrelétrica do país.

"Quando a gente pensa em termos de energia elétrica, aumenta o risco de você ter uma bandeira, o acionamento de uma bandeira vermelha 2 ali nessa primeira metade do ano, algo que pode impulsionar o IPCA em 12 meses nesse período, na hora que você já vai estar com uma alimentação mais alta".

Esse ponto é particularmente preocupante quando considerada a perspectiva de inflação em 12 meses. Enquanto as projeções de IPCA para o final do ano ainda apostam numa normalidade conforme o ano avança, a inflação acumulada em 12 meses no começo de 2027 pode apresentar surpresas para cima.

Costa ressalta que os modelos indicam que o El Niño deverá estar em vias de normalização apenas na metade de 2027, quando começará o período chuvoso do ano.

Commodities

A questão das commodities, embora importante, apresenta dinâmica diferente. Há riscos para a produção de grãos no Centro-Oeste e Sudeste, soja e milho principalmente, mas como parte do plantio começa em setembro, nesse período chuvoso, que vai até outubro, o risco não parece ser tão grande.

Na Argentina, que típicamente enfrenta padrão oposto ao Brasil durante El Niño (mais chuva no sul, seca no norte), pode haver cenário ligeiramente mais favorável para o mercado global de grãos.

"E commodities parece que está mais dominado por questões geopolíticas globais mesmo", afirmou Costa.

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