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Rotação dos portfólios globais, repressão financeira e o fluxo de capitais para emergentes

Para Rogerio Freitas, head de investimentos do ASA, movimento pode ser entendido como um ajuste racional de alocação de risco-retorno
05 de fevereiro de 2026

Artigo escrito por Rogerio Freitas, head de investimentos do ASA

Os mercados emergentes têm vivido em 2026 um movimento muito relevante de rotação dos portfólios globais, marcado por fluxos positivos expressivos de capitais denominados em dólares.

Após um período prolongado de dominância dos ativos norte-americanos — especialmente ações de tecnologia de grande capitalização — investidores institucionais e gestores de fundos vêm redesenhando suas alocações internacionais, redistribuindo recursos para regiões com maior potencial de retorno ajustado ao risco e valuations mais atrativos.

Esse fenômeno se manifesta de maneira clara nos dados de início do ano: em janeiro de 2026, as ações de mercados emergentes registraram entradas líquidas recordes de cerca de US$ 39 bilhões.

O movimento foi impulsionado por um dólar mais fraco, expectativas de crescimento econômico mais sólido em economias emergentes e pela busca por diversificação geográfica além dos drivers tradicionais de crescimento como tecnologia nos EUA.

Os principais vetores que estão alimentando essa rotação global de capital incluem:

1. Dólar mais fraco e expectativas de corte de juros pelo Fed

Uma tendência de enfraquecimento do dólar torna os retornos em moeda local de mercados emergentes mais atrativos, além de reduzir o custo do serviço de dívida em dólar desses países.

2. Valuations menos esticados e yields mais atraentes em emergentes

Comparados aos múltiplos elevados em mercados desenvolvidos, emergentes oferecem potencial de retorno superior, tanto em ações quanto em dívida, especialmente quando os bancos centrais locais mantêm juros reais positivos elevados.

3. Busca por diversificação e novos ciclos de crescimento

A percepção de que a liderança em performance de ativos pode se deslocar de forma mais ampla, saindo de um universo excessivamente concentrado em um único mercado, tem motivado ajustes estruturais nos portfólios globais.

Esse movimento está impactando não somente os mercados de ações e as moedas, como também os mercados de títulos de dívida emergentes. Isso implica aumento de fluxos em fundos de dívida em moeda local — um sinal de que investidores estão buscando exposição mais ampla à classe de ativos de mercados emergentes.

A repressão financeira e seu papel potencializador na atração de fluxos externos

Um aspecto menos discutido, mas cada vez mais relevante no debate sobre fluxos globais de capital, é o conceito de repressão financeira.

Na prática, se refere a um conjunto de políticas que, de maneira direta ou indireta, reduz os retornos reais de investidores domésticos para canalizar recursos para o setor público ou mercados internos.

Tradicionalmente, repressão financeira envolve medidas como:

1. Direcionamento de crédito compulsório ou forçado a setores específicos;
2. Taxas de juros controladas ou limitadas artificialmente abaixo da inflação;
3. Restrições à mobilidade de capitais para conter saídas ou manter financiamento acessível ao setor público.

Embora tal cenário seja mais frequentemente tratado como uma narrativa de “cenário de cauda”, ele começa a ganhar a atenção nos discursos de formuladores de política e estrategistas, especialmente em países com desafios estruturais de dívida e déficits fiscais persistentes.

Leia também: Dólar: queda abre espaço para moedas emergentes

Neste contexto, a repressão financeira pode ter implicações indiretas, porém significativas, sobre o fluxo de dólares para mercados emergentes:

1. Redução de incentivos para investidores domésticos manterem capital no país

Se os retornos reais disponíveis no mercado interno são comprimidos por políticas de crédito compulsório ou taxas controladas, investidores institucionais e privados tendem a buscar retornos mais elevados no exterior — o que, paradoxalmente, pode reforçar a necessidade de políticas que restrinjam saídas de capital.


2. Pressão por diferenciais de juros reais mais elevados para atrair capital externo

Em resposta à repressão interna, mercados emergentes podem realçar seus diferenciais de juros ou adotar regimes macroeconômicos mais estáveis para atrair capitais externos em dólar, em uma espécie de “competição global por yield”.


3. Repressão como fator de risco e oportunidade

A expectativa ou ameaça de medidas restritivas domésticas pode desencadear antecipações de realocação de portfólio internacional, estimulando fluxos adicionais para mercados emergentes percebidos como menos propensos a tal política.

Portanto, a rotação global de capitais em direção aos mercados emergentes em 2026 pode ser entendida tanto como um ajuste racional de alocação de risco-retorno, quanto como uma resposta indireta a tendências mais profundas nas políticas econômicas domésticas, como a repressão financeira.

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