Artigo escrito por Gabriel Giannechini, gestor de fundos multimercados do ASA
Os recentes comentários do presidente dos Estados Unidos Donald Trump, minimizando a importância da depreciação do dólar, ampliaram o movimento de enfraquecimento da moeda que já era observado desde novembro do ano passado.
Como resultado, o índice DXY (Índice Dólar) alcançou níveis não vistos desde 2022.
Esse contexto reflete uma combinação de fatores: incerteza sobre quem sucederá o presidente do Federal Reserve Jerome Powell, preocupações com a trajetória fiscal dos Estados Unidos e ruídos em torno da política comercial e tarifária.
Esses elementos reduziram o prêmio estrutural de 'segurança' do dólar e abriram espaço para uma nova fase de diversificação de reservas e portfólios fora de ativos denominados em dólar.
Nos últimos dias, o movimento ganhou força com especulações de que Japão e EUA poderiam intervir conjuntamente no mercado cambial, vendendo dólares e comprando ienes.
Como o iene é tradicionalmente utilizado como moeda de funding — graças ao seu baixo custo de carrego — ele influencia o movimento do dólar fraco em várias outras moedas.
Isso amplificou o movimento, levando à depreciação do dólar frente a praticamente todas as principais moedas.
O real brasileiro, por exemplo, acompanhou essa tendência, recuando a R$ 5,20, o menor valor desde 2024. O movimento também foi amplo entre moedas emergentes que oferecem altos diferenciais de juros e fundamentos macroeconômicos razoáveis.
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Em um cenário de crescimento global estável e inflação sob controle, países emergentes que mantiverem estabilidade local tendem a continuar atraindo fluxos de investimento estrangeiro, pois o ambiente segue favorável às estratégias de busca por carrego.
Em síntese, a recente fraqueza do dólar decorre da combinação de incertezas políticas e fiscais nos EUA com um ambiente global equilibrado que incentiva a diversificação fora dos ativos em dólar.
Enquanto o posicionamento vendido na moeda americana ainda não parece excessivo, as moedas emergentes com bom carrego e credibilidade doméstica permanecem entre as mais bem posicionadas para se beneficiar deste cenário.