Durante décadas, o investidor brasileiro construiu sua estratégia de segurança patrimonial sobre um alicerce bem consolidado: a alta taxa Selic.
Com juros frequentemente em dois dígitos, para quê correr riscos no mercado de ações ou no exterior se os títulos de renda fixa ofereciam remuneração atrativa e segura?
No entanto, um estudo recente da FGV traz uma mensagem para quem ainda confia exclusivamente nessa estratégia: deixar o patrimônio 100% concentrado no Brasil, mesmo com juros altos, não garante proteção patrimonial real.
Inflação real x inflação oficial
O primeiro golpe contra a ilusão da Selic alta vem de uma verdade desconfortável: o ganho nominal é corroído pela inflação.
Segundo Rogério Freitas, head de investimentos do ASA, "quando descontamos os impostos e a inflação real do dia a dia, o ganho real (poder de compra) costuma ser muito menor do que o número oficial".
Enquanto o IPCA oficial é acompanhado pelas autoridades, a inflação que afeta o custo de vida real das famílias muitas vezes supera os números divulgados.
Alimentação, energia e serviços essenciais corroem o poder de compra de forma mais severa do que se percebe à primeira vista.
O risco cambial
O segundo fator comprova que a proteção proporcionada pela Selic é muito mais frágil do que se imagina. "O real é uma moeda historicamente fraca e volátil perante o dólar", aponta Freitas.
"Quando o patrimônio está todo em reais, o investidor perde poder de compra global de forma silenciosa, já que grande parte dos insumos, tecnologia e commodities que consumimos são cotados em moeda estrangeira."
Isso significa que mesmo que você ganhe 10% ao ano em renda fixa, se o real se depreciar 15% frente ao dólar, seu poder de compra global terá diminuído.
É uma erosão que afeta diretamente a capacidade de consumir produtos e serviços precificados em moeda estrangeira.
Concentração excessiva em um mercado pequeno
O terceiro pilar que desmorona a ilusão da segurança total na Selic é a concentração geográfica.
"O mercado brasileiro representa menos de 1% do mercado de capitais global. Concentrar tudo localmente significa expor 100% do seu suor à instabilidade política, fiscal e regulatória do Brasil", explica Rogério Freitas.
Quando tudo está alocado em reais e títulos brasileiros, o patrimônio fica inteiramente dependente das decisões de política econômica, das mudanças institucionais e do risco soberano do país.
Mudanças abruptas em regulamentações, crises políticas ou choques econômicos podem impactar significativamente todo o portfólio simultaneamente.
Se a Selic sozinha não protege o patrimônio, qual seria a solução?
Para Rogério Freitas, "a solução não é fugir da renda fixa, mas sim a diversificar internacionalizando. Investir fora do país deixou de ser um luxo para os super-ricos e passou a ser uma estratégia de sobrevivência patrimonial de longo prazo."
Ao dolarizar parte dos investimentos, seja em títulos americanos, ações globais ou fundos internacionais, o investidor cria um colchão de segurança em uma moeda forte e desvincula seu futuro financeiro das oscilações de Brasília.
Essa diversificação não significa abandonar o Brasil, mas sim construir um portfólio que não dependa inteiramente de uma única moeda, um único país ou um único tipo de ativo.
Segundo Freitas, a mensagem do estudo da FGV é de que "a Selic alta pode gerar caixa no curto prazo, mas a verdadeira preservação patrimonial exige eficiente diversificação geográfica, de moeda, de setores e classes de risco."
O mito da Selic alta como proteção absoluta do patrimônio está sendo desmantelado pelos números. Aqueles que ainda acreditam que títulos de renda fixa brasileira são suficientes para proteger seu futuro financeiro estão, inconscientemente, fazendo uma aposta muito arriscada em uma única moeda, um único país e um único tipo de risco.
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