Artigo escrito por Charles Ferraz, head de global investimentos do ASA
Foi um ano bastante intenso nos Estados Unidos. O mercado, de forma geral, iniciou 2025 com uma expectativa muito positiva em relação à política econômica de Donald Trump.
Em janeiro, a expectativa era de que o novo governo viesse com políticas de menor intervenção do Estado na economia e redução de impostos.
Também havia a ideia de desregulamentação, deixando o mercado mais livre para atuar e liberar o espírito empresarial da população. Isso poderia causar um crescimento relevante, e o mercado estava com essa visão.
A visão era bastante otimista desde a eleição de Trump. Os mercados começaram a antecipar esse cenário, até que, em abril, veio uma surpresa — não total, mas pela intensidade e magnitude das tarifas. Isso causou uma grande decepção nos mercados, que tiveram uma realização significativa.
No mundo inteiro, especialmente nos Estados Unidos, o dólar perdeu valor em relação a outras moedas. Essa nova política gerou grande incerteza, vários economistas e casas relevantes já falavam em recessão, o que começou a impactar os mercados. O governo foi revendo sua postura.
Assim, começamos com uma visão otimista, de pouca intervenção do Estado, mas veio uma intervenção forte que gerou decepção. Os mercados reagiram e, de lá para cá, foram se acostumando, com o governo recuando em vários pontos.
O tema inteligência artificial continuou influenciando fortemente os mercados, um movimento que se acelera desde o surgimento do ChatGPT, no fim de 2022.
As ações de empresas ligadas ao tema tiveram performance significativa neste período e, com os efeitos dos resultados obtidos pelas empresas, acabou mais do que compensando a incerteza gerada pelas mudanças de tarifas. No fim, foi um ano muito bom, com volatilidade, mas positivo.
Os portfólios mais expostos a ativos de risco tiveram ótima performance no mundo todo. O Ibovespa foi um dos campeões de rentabilidade do ano. Mercados emergentes também tiveram desempenho significativo. Europa performou bem, e até os EUA, que começaram mal, terminaram o ano em alta.
Retornos na casa dos 16% nos EUA, contra 30% em emergentes. Brasil, em moeda local, com rentabilidade de 30%. Em dólares, devido à valorização do real, foi cerca de 50%. Europa também teve retorno na casa dos 30%, em dólares, sendo metade pela valorização da bolsa e metade pelo euro contra o dólar.
Terminamos o ano de 2025 com investidores felizes. Quem colocou em ativos de risco e manteve portfólio balanceado teve retornos de dois dígitos em dólares.
Olhando para frente, estamos otimistas com a economia americana. Acreditamos que o crescimento pode ser até maior do que o mercado imagina, puxado por política fiscal mais expansionista no primeiro semestre e investimentos ligados à inteligência artificial, data centers e energia.
O Fed deve continuar cortando juros. Nossa visão é mais cautelosa: dado o crescimento e a inflação ainda fora da meta, acreditamos que o banco central não cortará tanto quanto o mercado espera. Mas não falamos de alta, e sim de estabilidade ou cortes moderados, o que estimula a economia.
Dessa forma, vemos uma economia americana saudável, crescendo mais que o dobro da Europa. Há alguma preocupação com o mercado de trabalho, mas nada que mude nossa visão. Para 2026, enxergamos uma economia sólida e juros em trajetória de queda.
Na Europa, o crescimento deve ser pequeno, apesar das expectativas ligadas à dinâmica geopolítica. De forma geral, vemos cenário favorável para os mercados, com crescimento modesto, inflação como ponto de atenção e bancos centrais estáveis ou cortando juros — talvez com exceção do Japão. Esse cenário global deve continuar beneficiando mercados emergentes.
Estratégias de alocação
O ano começou de forma mais quieta, porque percebemos que o mercado estava muito empolgado. Quando o mercado está excessivamente otimista, tendemos a adotar uma postura mais cautelosa.
Em abril, porém, o mercado passou a precificar um cenário muito ruim, com eventual recessão. Nesse momento, entendemos que havia uma oportunidade e aumentamos o risco das carteiras, com algumas proteções — como ouro, queaté gerouum bom resultado.
Mais recentemente, reduzimos novamente o risco. Observamos que o mercado entrou em uma dinâmica de acreditar que tudo estava resolvido: que a economia iria crescer, que o banco central cortaria os juros e que os problemas haviam acabado. Nesse tipo de cenário, preferimos ficar mais cautelosos.
É importante lembrar que o nosso foco não é acertar o cenário econômico, mas gerar bons resultados para os clientes. Por isso, estamos sempre revisando nossas posições. Essa é uma conversa diária dentro da equipe.
Nossa visão foi a seguinte: começamos cautelosos, em abril aumentamos o risco diante da crise e, agora, voltamos a reduzir. Acreditamosque o mercado está otimista demais. Embora acreditemos que as coisas caminhem bem, vemos algumas nuvens que preocupam. Não a ponto de nos tornar pessimistas, mas acreditamos que o Fed não cortará os juros tanto quanto o mercado espera.
Além disso, já está embutido nos preços que as empresas terão resultados muito fortes. Da última vez que isso aconteceu, os resultados vieram, mas a reação do mercado não foi tão empolgada. Esses fatores nos deixam mais cautelosos, mas acreditamos que a bolsa nos EUA ainda deve continuar performando bem nos próximos meses/trimestres.