Investimentos

Visão 360º: Surpresa na inflação, porta aberta para os juros e eleições no radar em agosto

As últimas movimentações políticas e econômicas do Brasil e dos Estados Unidos apontaram para onde os agentes devem olhar nos próximos meses: inflação e calendário eleitoral
06 de agosto de 2026

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Como chegamos até aqui

Em agosto, o segundo semestre começa oficialmente para o mercado financeiro. As últimas movimentações políticas e econômicas do Brasil e dos Estados Unidos apontaram para onde os agentes devem olhar nos próximos meses: inflação e calendário eleitoral.

O primeiro, principal preocupação dos bancos centrais ao redor do mundo, foi citada nominalmente pelo Fomc na última reunião, que aconteceu no final de julho. O presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, reafirmou que vai levar a inflação à meta de 2%. Nem acima, nem abaixo. 2%. Mesmo assim, decidiu manter a taxa de juros inalterada no intervalo de 3,50% e 3,75%.

O que chamou a atenção é que três membros do comitê americano defenderam a alta de 0,25 ponto percentual nesta reunião, receosos pela resistência da inflação acima da mesa. Mas o trio foi voto vencido.

"Apesar de defender que o Fed não está recuando de suas responsabilidades e repetir a mensagem de que, quando for necessário e apropriado, não hesitará em agir, Kevin Warsh acabou transferindo a responsabilidade pela condução das condições financeiras para o próprio mercado, ao dizer que o recente aperto no período entre reuniões "deu conforto" para o Fed", avalia Andressa Durão, economista do ASA.

Na avaliação dela, a mensagem enfraqueceu a credibilidade da autoridade monetária e carregou um viés acomodatício, já que o dirigente não demonstrou qualquer inclinação para promover efetivamente a elevação dos juros no sentido de conter o aumento dos preços.

A projeção do ASA é de que o Banco Central americano vai se ver obrigado a elevar a taxa básica de juros em duas etapas consecutivas de 0,25 ponto percentual cada, com início já na próxima reunião, marcada para setembro.

No Brasil, a inflação também foi destaque no comunicado do Copom, o comitê de política monetária. Apesar de o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) surpreender para baixo em julho, o economista do ASA, Leonardo Costa, avalia que a melhora pontual nos índices de preços não se traduziu automaticamente em confiança por parte dos agentes econômicos.

"Em nossa leitura, o movimento reforça a avaliação de que a melhora recente da inflação corrente ainda não tem sido suficiente para promover uma reancoragem mais consistente das expectativas nos horizontes mais relevantes para a condução da política monetária."

Na última reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central, o colegiado anunciou uma nova redução de 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros, fixando a Selic em 14% ao ano.

A decisão dá continuidade ao ritmo gradual de flexibilização monetária adotado pela autoridade monetária, em uma escolha que veio alinhada às projeções do mercado.

O comunicado reconhece um ambiente externo ainda desafiador, marcado pela incerteza quanto aos conflitos no Oriente Médio e à condução da política monetária nas economias avançadas.

No cenário doméstico, o documento destacou a continuidade da desaceleração gradual da atividade econômica, embora ainda em patamar resiliente, e a melhora da inflação corrente, que ainda se situa acima do limite superior da meta.

"Os próximos passos ficaram em aberto, com o BC se colocando dependentes de dados. Projetamos estabilidade da taxa Selic nas próximas reuniões, mas com risco maior de cortes adicionais nas próximas reuniões, com o foco se voltando agora para setembro", avalia Costa.

Outro ponto que os dois países estão alinhados é que ambos se voltam às eleições a partir desse mês. Nos Estados Unidos, as de meio de mandato são aguardadas juntamente com o aumento da incerteza política e maior volatilidade nos mercados.

"A gente tem não só a questão da guerra do Oriente Médio, mas também a questão das tarifas. Com as tarifas, a gente já viu uma perda de popularidade do Partido Republicano, falando das midterms, que só foi piorando conforme o mandato avançou e trouxe mais instabilidade", avalia Durão.

De acordo com a economista, a guerra do Oriente Médio consolidou a perda da Câmara no Congresso Republicano, algo que já era esperado pelo mercado que o Congresso passasse a ser parcialmente democrata a partir dessa eleição de meio de mandato em novembro, e o mercado agora também está dividido sobre o Senado.

No território brasileiro, a eleição para a presidência da república é o grande tema do segundo semestre. Com o avanço das convenções partidárias e o início oficial da campanha eleitoral, os agentes aguardam mais detalhes das agendas econômicas dos candidatos. Em especial, eventuais novidades no Lula 4; e as prioridades econômicas da gestão Flávio Bolsonaro.


Que comecem as agendas econômicas

Chegou ao fim o recesso parlamentar do Congresso Nacional e dos tribunais superiores. No entanto, as votações perdem espaço a partir de agora, diante do início da campanha eleitoral. No Judiciário, o STF (Supremo Tribunal Federal) deve reunir julgamentos com impacto econômico e regulatório.

"A Corte analisa a constitucionalidade da contribuição ao Funrural, a aplicação das regras da reforma tributária para a isenção de IBS e CBS na compra de veículos por pessoas com deficiência, além de ações sobre a criminalização dos jogos de azar e sobre a participação de capital estrangeiro em portais de notícias e plataformas digitais", destaca o head de macroeconomia do ASA, Jeferson Bittencourt.

Além disso, o CNPS (Conselho Nacional da Previdência Social) volta a discutir o teto dos juros do crédito consignado do INSS, enquanto a atenção do presidente deve se voltar para a sanção do PL de conversão da MP 1343/26, que trata do piso mínimo do frete.

Para onde olhar em agosto

Em agosto, a agenda macroeconômica doméstica ganha tração com a divulgação da ata do último encontro do Copom e dos novos dados mensais de inflação e emprego, que testarão a resiliência da atividade econômica brasileira frente aos juros restritivos. Assim como devem dar novos sinais de como a Selic deve encerrar o ano.

Para Bittencourt, o ímpeto de amenizar os choques inflacionários causados pelo conflito entre Estados Unidos e Irã levou o governo a uma agenda de incentivos capilarizada para frentes totalmente desconectadas do cenário bélico.

"O volume de incentivos foi tão expressivo que a expectativa de um ciclo mais consistente de cortes na Selic acabou sendo corroída por fatores estritamente domésticos", destacou.

Por isso, o início da agenda eleitoral deve situar os investidores do que deve ser feito a partir de 2027.

No cenário internacional, o foco se desloca para as eleições de meio de mandato, que deve servir como um termômetro para medir a popularidade do presidente Donald Trump.


Bolsa e dólar vigilantes

O mercado acionário brasileiro encerrou o mês de julho quebrando uma sequência negativa de quatro meses de quedas consecutivas, impulsionado principalmente pelo alívio nas expectativas de inflação e pela perspectiva de cortes adicionais na taxa Selic pelo Copom.

O Ibovespa registrou valorização de mais de 3% no período, conseguindo recuperar parte do fôlego perdido e voltando a se aproximar de patamares mais confortáveis para os investidores de risco.

Apesar dessa trégua momentânea na bolsa brasileira, o fluxo de capital estrangeiro permaneceu sob desconfiança, refletindo a cautela internacional.

Segundo Rogerio Freitas, head de investimentos do ASA, o mercado brasileiro vive hoje o que ele chama de uma "árvore binomial", na qual o futuro da bolsa está condicionado ao perfil fiscal do próximo presidente.

"Nessa árvore binomial, existe um candidato fiscalmente responsável e um candidato não fiscalmente responsável. Se elegermos um candidato fiscalmente responsável, a projeção do Ibovespa na casa dos 300 mil pontos continua atual. Os ativos brasileiros de risco podem performar muito bem".

No mercado de câmbio, o dólar apresentou um comportamento de descompressão frente ao real ao longo de julho, engatando perdas acumuladas no mês.

O movimento foi influenciado pela perda de força da moeda americana no cenário global, após indicadores de inflação nos Estados Unidos virem abaixo do esperado e abrandarem as apostas mais agressivas de aperto imediato pelo Federal Reserve.

Ainda assim, a divisa norte-americana manteve patamares de resiliência importantes no Brasil, sustentada pelo diferencial de juros e, sobretudo, pelas incertezas persistentes em torno da dinâmica fiscal e do cenário eleitoral doméstico, que continuam a limitar um recuo mais consistente do câmbio


Para onde olhar

O mês de julho destacou uma trajetória contínua de recuperação no mercado de crédito privado, revelando, contudo, comportamentos bem divergentes entre os ativos atrelados ao CDI e as debêntures incentivadas.

"Nos ativos atrelados ao CDI, o ambiente permaneceu construtivo, com fechamento gradual dos spreads e maior estabilidade nos créditos de melhor qualidade. Já nas incentivadas, o comportamento seguiu mais volátil: apesar de alguma acomodação ao fim do mês, o mercado secundário ainda refletiu pressão relevante, indicando uma recuperação menos uniforme", diz um trecho da carta mensal do fundo Pericles, do ASA.

As debêntures incentivadas registraram sinais tímidos de reabertura de emissões, mas avançaram em ritmo moderado, consolidando um panorama de reestruturação seletiva e compassada.

Paralelamente, o mercado de títulos públicos soberanos aproveitou o estresse na precificação da curva de juros futuros ao longo do mês para escancarar uma janela de alocação para os investidores focados na preservação de capital e na obtenção de ganhos reais expressivos.

De acordo com Thais Prado, head de fundos de crédito privado do ASA, essa percepção de segurança absoluta foi testada recentemente.

"Essa parcela da renda fixa chegou a ser encarada como um porto seguro, mas o mercado enfrentou episódios complexos. Exemplo disso foi o pedido de recuperação judicial de uma das maiores empresas do país, um evento que muitos não acreditavam que ocorreria, mas que se concretizou e impactou diversos investidores."

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