Artigo escrito por Rogerio Freitas, head de investimentos do ASA
Todo gestor sênior de portfólio adquire ao longo da sua experiencia no mercado importantes lições de economia comportamental.
O campo das finanças comportamentais é bastante fértil em descrever as maneiras como nosso cérebro toma decisões financeiras e como ele pode nos fazer incorrer em erros.
São essas experiências, muito bem difundidas e estudadas por profissionais e acadêmicos como Daniel Kahneman (Prêmio Nobel em 2002), Charlie Munger, Howard Marks, Bob Shiller (Nobel em 2013), Richard Thaler (Nobel em 2017), que gostaríamos de compartilhar com nossos investidores.
Apesar de reconhecermos a importância do trabalho analítico, a mentalidade e a estrutura de pensamento correta englobam - necessariamente - o conhecimento de conceitos sobre psicologia de julgamento e tomada de decisão sob incerteza.
Esses conceitos são muito importantes para nos defendermos de nós mesmos, os piores inimigos dos nossos próprios investimentos.
Nesse sentido, compartilhamos 11 conselhos que servem como mandamentos de proteção do seu patrimônio e da sua família.
1. Reconheça seus vieses cognitivos antes de definir os retornos futuros dos investimentos
Os investidores devem estar cientes dos vieses que podem afetar suas decisões. Por exemplo, o viés de confirmação pode levar um investidor a buscar apenas informações que corroboram com suas crenças existentes, ignorando dados que possam contradizê-las. É essencial buscar uma visão equilibrada e considerar todas as evidências disponíveis.
2. Evite excesso de confiança
O excesso de confiança pode fazer com que os investidores subestimem riscos e superestimem suas habilidades. Os investidores devem fazer avaliações objetivas de suas competências e buscar feedback externo para evitar decisões impulsivas.
3. Mantenha sempre a disciplina
Desenvolver e seguir um plano de investimento claro pode ajudar a evitar decisões emocionais. Crie regras de investimento baseadas em análises racionais e não em emoções momentâneas. Checklists e regras são fundamentais para a consistência de longo prazo.
4. Aprenda com os erros
A psicologia do erro de julgamento destaca a importância de se aprender com os próprios erros. Em vez de ignorar falhas, os investidores devem analisá-las para entender o que deu errado e como evitar decisões semelhantes no futuro.
5. Tenha cuidado com o efeito manada
Os investidores muitas vezes seguem o comportamento da maioria, o que pode levar a decisões precipitadas. O ser humano prefere perder junto com seus amigos do que vê-los ganhando sozinhos. É crucial fazer uma análise independente das oportunidades de investimento e não se deixar levar por tendências ou pela pressão social.
6. Evite o viés de confirmação
Temos a tendência de buscar ou interpretar informações de maneira que confirmem crenças ou hipóteses pré-existentes, ignorando dados que possam contradizê-las. Se questione sempre e tente não se deixar levar pela busca de confirmações.
7. Cuidado com viés de recência
Temos tendência em acreditar que o futuro será a extrapolação do passado recente. Damos mais peso a eventos recentes ao fazer previsões sobre o futuro, o que pode distorcer a percepção de tendências de longo prazo.
8. Valorize o longo prazo
A mentalidade de curto-prazismo pode levar a decisões apressadas e arriscadas. Incentivar uma visão de longo prazo ajuda a superar a volatilidade do mercado e a manter o foco nos objetivos financeiros. A composição de retornos é a 8ª Maravilha do Mundo, mas a magica do retorno composto só acontece se deixarmos o tempo funcionar a nosso favor.
9. Diversifique
A diversificação é uma estratégia comprovada para mitigar riscos e gerar eficiência ao seu portfolio. Não colocar todos os ovos na mesma cesta pode proteger o portfólio contra movimentos adversos de mercado. Estratégias do tipo “all in”, na maior parte das vezes, devem ser evitadas, apesar de funcionar muito bem em filmes.
10. Reconheça a importância das emoções
As emoções influenciam decisões de investimento. É essencial estar consciente de como o medo e a ganância podem afetar o julgamento e, em função disso, buscar formas de gerenciar essas emoções.
11. Busque continuamente educação
Investir em conhecimento sobre economia comportamental e psicologia do investimento pode aprimorar a capacidade de tomar decisões mais informadas e racionais.
Essa carta é um lembrete poderoso de que a psicologia desempenha um papel significativo nas decisões financeiras. Ao entender e reconhecer os vieses que afetam nosso julgamento, esperamos melhorar suas decisões e, consequentemente, seu desempenho financeiro.
Para finalizar, recomendamos a leitura do discurso de Charlie Munger, "A Psicologia do Erro de Julgamento Humano”, que é uma reflexão profunda sobre como os vieses cognitivos e as falhas psicológicas afetam as decisões humanas, especialmente no contexto dos investimentos.
Encorajamos sempre uma abordagem disciplinada e reflexiva de construção de portfólio, enfatizando que o sucesso no investimento não é apenas uma questão de números, mas também de compreender a complexidade do comportamento humano.
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