O Brasil, historicamente conhecido como o país da renda fixa, vive uma fase de forte atração de capitais para essa classe de ativos impulsionada pelo cenário de juros elevados.
Esse movimento massivo de recursos acabou esvaziando outros mercados tradicionais, como a bolsa de valores e os fundos multimercados.
Entretanto, o apetite do investidor brasileiro por rentabilidade encontrou no crédito privado, em especial nos papéis isentos de Imposto de Renda, o seu destino favorito, criando um mercado que atrai volumes expressivos, mas que exige cautela redobrada.
Apesar do forte fluxo de capital direcionado aos títulos corporativos, especialistas alertam que a modalidade está longe de ser livre de riscos.
Segundo Thaís Prado, head de fundos de crédito privado do ASA, essa percepção de segurança absoluta foi testada recentemente.
"Essa parcela da renda fixa chegou a ser encarada como um porto seguro, mas o mercado enfrentou episódios complexos. Exemplo disso foi o pedido de recuperação judicial de uma das maiores empresas do país, um evento que muitos não acreditavam que ocorreria, mas que se concretizou e impactou diversos investidores."
O impacto desse episódio gerou reações imediatas no comportamento do mercado. Conforme aponta a gestora, em fevereiro houve "uma desaceleração temporária no ímpeto pelo crédito privado, mas o mercado logo se estabilizou e os aportes na classe voltaram a ganhar força."
A turbulência recente deixou marcas, mas não afastou o investidor em definitivo. A mudança ocorreu na seletividade: o mercado agora adota uma postura mais madura e vigilante na hora de alocar recursos.
"Atualmente, percebe-se um investidor um pouco mais cauteloso, buscando papéis bancários ou emissores com perfil de crédito mais saudável."
No que diz respeito às diferentes categorias de risco, a distinção entre os papéis de maior qualidade e os de maior retorno continua sendo fundamental para a estratégia de alocação.
"Em relação ao mercado high yield (ou seja, de alto rendimento), embora por vezes não apresente a mesma dinâmica de risco de um high grade (aqueles mais confiáveis) desprovido de garantias, trata-se de uma categoria inerentemente mais arriscada, que compensa essa exposição pagando taxas maiores."
A forte resiliência da classe de crédito privado comprova que o apetite do investidor brasileiro permanece em alta. Mesmo diante de saídas pontuais de capital, a tendência predominante é de fluxo contínuo para o setor.
Resumindo o cenário atual e as projeções para os próximos anos, Thaís Prado conclui que o mercado registrou uma entrada massiva de recursos com resgates reduzidos, e mesmo o capital que saiu já demonstra intenção de retornar ao crédito privado.
"Diante da perspectiva de juros elevados para os próximos quatro anos, a tendência é que o fluxo de entrada nessa classe permaneça bastante robusto."
LEIA TAMBÉM:Crédito estruturado será o próximo destino do investidor de varejo