O ciclo de corte de juros no Brasil deve ter um início mais cauteloso. A avaliação é do time de macroeconomia do ASA, que revisou o cenário e agora vê um corte de 0,25 ponto percentual na decisão desta quarta-feira (18), ante projeção de corte de 0,50 pp.
A mudança acontece em um contexto externo mais desafiador, dada a escalada relevante do conflito no Oriente Médio. Com isso, a expectativa é de que a taxa básica recue de 15% para 14,75% ao ano.
Leonardo Costa, economista do ASA, destaca que a principal implicação da turbulência internacional vem da alta das commodities energéticas, em especial do petróleo.
Nas últimas semanas, o barril do petróleo chegou a superar os US$ 100 e a se aproximar dos US$ 120 com preocupações com uma interrupção prolongada da oferta da commodity.
O fechamento do Estreito de Ormuz, uma rota estratégica para exportações de gás natural, petróleo e fertilizantes, bem como ameaças a navios petroleiros também pressionaram os preços.
Segundo Costa, ainda que o BC tenda a olhar para a curva da commodity e não apenas para o preço spot (à vista), a elevação recente dos preços amplia os riscos para a inflação doméstica, tanto de forma direta, via combustíveis, quanto indireta, por eventuais efeitos secundários sobre expectativas e preços administrados.
"Em nossa leitura, esse choque deve elevar a projeção do Banco Central para o IPCA no horizonte relevante, que passaria a se aproximar de 3,6% no 3º trimestre de 2027, afastando-se do centro da meta. Esse deslocamento, por si só, já reforça a conveniência de um início de ciclo mais parcimonioso", destaca o time de macroeconomia do ASA.
Aumento de incerteza
A avaliação do ASA é de que cortar 0,25 p.p. permite ao Copom (Comitê de Política Monetária) preservar a sinalização de janeiro, iniciando o ciclo de cortes, ao mesmo tempo em que reconhece o aumento expressivo da incerteza.
"Em um ambiente em que ainda não está claro qual será a duração do choque sobre petróleo, ativos globais e prêmio de risco, o início mais moderado compra tempo para o Comitê observar os próximos dados e calibrar melhor a extensão da flexibilização."
Neste contexto, a expectativa é de uma comunicação mais cautelosa, com ênfase maior em dependência de dados e na necessidade de acompanhar os desdobramentos do cenário externo antes de acelerar o ritmo de cortes.
O ASA mantém a projeção de taxa terminal da Selic em 12%, mas reconhece que o balanço de riscos ficou mais desafiador.
Em outras palavras, se a alta do petróleo se mostrar mais persistente ou se o conflito no Oriente Médio ganhar novas dimensões, a taxa terminal poderá acabar sendo mais alta do que a projetada atualmente.