A Agrishow 2026, em Ribeirão Preto, foi palco de uma radiografia contundente sobre o agronegócio mundial. O professor Marcos Fava Neves, conhecido como o "Doutor Agro", detalhou como o Brasil ascendeu para a posição de protagonista central da segurança alimentar global.
O país, que antes ocupava as fileiras do fundo em eventos do setor, hoje lidera aberturas de conferências mundiais e dita o ritmo da produção, impulsionado por uma urbanização acelerada que troca a subsistência pelo consumo de proteínas processadas e energia limpa.
Segundo Fava Neves, o Brasil atravessa uma transição histórica sustentada pela "carnificação" da produção e por um tsunami bioenergético circular que promete redefinir a competitividade do país nos próximos 25 anos.
Essa mudança de patamar é evidenciada pela capacidade de instituições brasileiras identificarem empresas nacionais aptas a apresentar casos de sucesso em fóruns globais, refletindo o empoderamento de uma sociedade que já se tornou o maior exportador mundial de carne bovina.
A demanda global por alimentos segue firme, ancorada no fato de que 50% da população do planeta ainda vive no campo e, ao migrar para as cidades, abandona a subsistência em busca de produtos industrializados.
Na China e na Índia, o aumento da renda per capita e a urbanização constante garantem a pressão sobre o suprimento físico de comida, algo que as tecnologias digitais não conseguem substituir.
Dentro dessa lógica, a estratégia brasileira de transformar grãos em carne, a chamada "carnificação", surge como o grande motor de agregação de valor.
Atualmente, o Brasil detém fatias de mercado impressionantes: cerca de 40% do frango comprado pelo mundo, 30% da carne bovina e 20% da suína. Na cadeia de grãos, o domínio é ainda mais acentuado, com o país entregando 61% da soja comercializada no planeta.
A importância de processar esses insumos domesticamente é matemática: se o Brasil exportasse apenas a soja e o milho que alimentam seus animais, em vez da proteína final, a receita cairia de US$ 13 bilhões para US$ 3 bilhões.
Paralelamente, o setor vive uma revolução bioenergética sem precedentes com o avanço do etanol de milho. O país saltou para 27 unidades de esmagamento em operação, com dezenas de novos projetos autorizados que devem totalizar 59 unidades em 15 anos.
Esse ecossistema industrial cria uma economia circular onde o milho gera combustível e farelo, que por sua vez sustenta confinamentos vizinhos, cujos dejetos produzem biometano para movimentar as frotas de caminhões.
Contudo, o momento atual exige cautela financeira diante de um cenário de endividamento e custos elevados.
O produtor brasileiro enfrenta a "despedida" de um aliado dos últimos cinco anos: o câmbio alto.
Com a moeda operando abaixo do patamar de R$ 5, a rentabilidade é diretamente impactada, reduzindo a receita em reais para o exportador.Além disso, juros altos e gargalos na gestão de pessoas e educação impõem desafios operacionais severos.
Olhando para o futuro, a projeção é que o Brasil aumente sua área de grãos em 20 milhões de hectares nos próximos 10 anos.
O diferencial estratégico é que essa expansão pode ser realizada sem converter novos hectares de vegetação nativa, focando na produtividade e na preservação de dois terços do território nacional, o que consolida o país como detentor dos melhores indicadores ambientais do mundo.
O combate ao desmatamento ilegal é, portanto, visto como essencial para proteger a imagem de um setor que já exporta produtos sofisticados, como o pão de alho fabricado em Ribeirão Preto que hoje ocupa as gôndolas dos Estados Unidos, simbolizando a maturidade e a ambição industrial do agronegócio brasileiro.
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