O ASA revisou para cima suas estimativas para a inflação oficial brasileira, o IPCA, refletindo um cenário de desinflação que perdeu fôlego nos últimos meses.
De acordo com o novo cenário, a projeção para o IPCA de 2026 passou de 5,0% para 5,3%, enquanto a estimativa para 2027 avançou de 4,0% para 4,3%.
A deterioração das expectativas fundamenta-se, principalmente, na resiliência do setor de serviços. Segundo o ASA, o núcleo desse componente segue rodando em patamares elevados e apresentou aceleração na margem.
"O processo desinflacionário observado no começo do ano perdeu tração", avalia Leonardo Costa, economista do ASA. "O principal fator por trás da revisão é a resistência do núcleo de serviços. A média móvel de três meses anualizada desse componente voltou a avançar."
Para o economista, os dados sinalizam que a pressão inflacionária possui raízes domésticas profundas, impulsionadas por um mercado de trabalho que permanece aquecido.
Esse dinamismo do emprego dificulta o recuo dos preços de serviços, tornando o caminho para a meta de inflação mais árduo.
"Isso torna o processo de convergência mais lento e custoso", destaca Costa.
Além das pressões internas, o cenário externo também contribuiu para a revisão. O recrudescimento do conflito no Oriente Médio trouxe uma nova camada de incerteza sobre a cotação do petróleo e a estabilidade das cadeias globais de suprimentos.
"Esse canal contribui para manter a pressão sobre combustíveis e alimentos, com potencial de contaminação para o núcleo via custos de produção", explica o economista do ASA.
Quanto ao horizonte de 2027, a ASA pontua que o ajuste para 4,3% é um reflexo direto da inércia inflacionária contratada para este ano.
A persistência de um IPCA mais alto no curto prazo acaba por contaminar as expectativas e a formação de preços para os períodos seguintes, dificultando uma ancoragem mais rápida das metas.
Inflação de abril
O IPCA de abril registrou variação de +0,67%, em linha com a estimativa do ASA. Em 12 meses, o índice acumula 4,39%, acelerando em relação aos 4,14% registrados nos 12 meses até março.
No ano, o acumulado é de 2,60%, com destaque para alta maior do que o projetado em alimentação (carnes e in natura).
A média dos núcleos registrou taxa de +0,50% (ante estimativa do ASA de 0,41%). Em 12 meses, os núcleos acumulam 4,37%. Em relação à projeção do ASA, surpresa em bens industrializados (artigos de residência) e serviços (pessoais).
"O balanço qualitativo segue deteriorado no IPCA. O núcleo de serviços mostra novo avanço na média móvel de 3 meses anualizada, o que reforça a percepção de que a desinflação nesse componente, o mais persistente e sensível às condições do mercado de trabalho, voltou a piorar", avalia Costa.
Os bens industrializados também vêm apresentando pressão crescente, possivelmente reflexo de efeitos de segunda ordem do conflito no Oriente Médio sobre cadeias de insumos e câmbio.
Segundo Leonardo Costa, o resultado de abril, embora numericamente mais baixo que março, não traz alívio estrutural.
A desaceleração ocorreu, em larga medida, por fatores voláteis e pontuais, enquanto os componentes mais persistentes seguem pressionados, o que deve gerar preocupação para o Banco Central.
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