O mercado secundário de debêntures registrou volumes recordes até julho de 2026, surpreendendo analistas e operadores. No entanto, o que parece ser apenas uma marca histórica esconde uma mudança profunda na origem desse volume e no perfil dos participantes.

Segundo Thais Prado, head de fundos de crédito privado do ASA, a engrenagem que movimenta o mercado secundário mudou de eixo. Se antes o fluxo era impulsionado pelas novas emissões, impulsionado por redistribuições, ajustes de alocação e venda de sobras de garantia firme, este canal perdeu força.

"Na nossa base de negócios papel a papel, os papéis emitidos nos três meses anteriores eram cerca de 15% do volume negociado em 2025. Entre julho e setembro de 2026 foram 4%. Com o primário cerca de 35% menor, o secundário passou a girar o estoque", aponta Prado.

Com o mercado primário de debêntures reduzido em cerca de 35%, a rotação recaiu sobre os ativos já existentes.

Essa transição refletiu diretamente na ponta vendedora e compradora:

  • Resgates superam captações: Os fundos de crédito e infraestrutura inverteram totalmente o cenário, saindo de uma captação líquida positiva de aproximadamente R$ 79 bilhões nos sete primeiros meses de 2025 para um cenário de resgates de magnitude equivalente em 2026.

  • Novos compradores: Do outro lado do balcão, emergiu um investidor mais pulverizado.

  • Tíquete médio menor: O número de negócios cresceu em ritmo superior ao volume financeiro, provocando uma queda de cerca de 25% no tíquete médio das operações.

  • Protagonismo das incentivadas: As debêntures incentivadas já representam mais de 40% de tudo o que é negociado no secundário.

Para Thais Prado, o dado mais relevante de 2026 não está apenas no recorde de volume, mas sim na resiliência dos preços diante do estresse de liquidez.

O pico de negociações entre março e abril veio acompanhado de uma abertura temporária de spreads. No entanto, os diferenciais de taxa voltaram a fechar na sequência, mesmo com a continuidade dos resgates.

A explicação está na escassez: com pouca emissão nova, o estoque enxugou.

"O mercado absorveu saídas dessa ordem sem se deslocar muito, e isso diz mais sobre amadurecimento do que o recorde", avalia a head de crédito privado do ASA.

Apesar do forte desempenho no primeiro semestre, o ritmo começou a desacelerar no segundo semestre. De acordo com os dados apresentados por Thais, os meses de agosto e setembro registraram um volume de negociação entre 20% e 25% inferior ao observado no mesmo período do ano anterior.

A grande interrogação para o fechamento do ano está no mercado primário: caso as novas emissões não retomem o fôlego no último trimestre, o recorde de 2026 ficará restrito ao desempenho obtido na primeira metade do ano.

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