O início do ano costuma impor um teste adicional à gestão financeira das empresas brasileiras.
A concentração de despesas recorrentes — como pagamento de tributos, ajustes fiscais, bônus e participação nos lucros (PLR), IPVA de frotas, reajustes contratuais e dissídios salariais — cria um ambiente de maior pressão sobre o caixa, mesmo em companhias com balanços sólidos.
Além disso, fornecedores represados no fim do ano tendem a ser pagos nos primeiros meses do exercício seguinte, ampliando o risco de um descasamento temporário entre receitas e despesas.
O fenômeno não é necessariamente um sinal de fragilidade financeira, mas exige atenção redobrada do gestor para evitar impactos operacionais ou custos financeiros desnecessários.
Especialistas em finanças corporativas apontam que, nesse período, a previsibilidade do fluxo de caixa ganha importância estratégica.
A gestão inadequada desse momento pode comprometer investimentos, negociações com fornecedores e até o capital de giro operacional.
Alternativas para atravessar o primeiro trimestre
Para lidar com esse cenário, empresas têm recorrido a diferentes instrumentos financeiros, buscando alinhar prazos, custos e garantias ao seu ciclo operacional.
Entre as alternativas mais comuns está o capital de giro com garantia imobiliária ou de veículos, que permite alongar prazos e reduzir o custo financeiro em comparação a linhas tradicionais sem garantia.
Outra opção é a cessão de contratos e duplicatas, mecanismo que antecipa receitas futuras e transforma direitos creditórios em liquidez imediata.
A ferramenta é especialmente utilizada por empresas com carteira diversificada de clientes e contratos recorrentes.
Também têm ganhado espaço as notas comerciais, instrumento que oferece maior flexibilidade na estruturação das garantias e pode ser desenhado sob medida para atender necessidades específicas de caixa.
Já as operações estruturadas permitem um alinhamento mais preciso entre o financiamento e o ciclo operacional da empresa, reduzindo riscos de refinanciamento ao longo do ano.
Gestão de liquidez como fator competitivo
Em um ambiente de juros ainda elevados e maior seletividade do crédito, a forma como as empresas atravessam o primeiro trimestre pode se tornar um diferencial competitivo.
Companhias que conseguem antecipar necessidades de caixa, diversificar fontes de financiamento e negociar melhores condições tendem a preservar margens e manter espaço para investimentos ao longo do ano.
O desafio do início do exercício reforça a importância de uma visão integrada entre planejamento financeiro, estrutura de capital e estratégia operacional.
Mais do que reagir às pressões de curto prazo, a gestão eficiente do caixa passa a ser um elemento central da governança financeira das empresas em 2026.