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Como chegamos até aqui
A Super Quarta, quando Estados Unidos e Brasil anunciam novas decisões de juros, correu conforme o esperado pelo mercado: o Fomc manteve o intervalo de juros em 3,5% a 3,75%; enquanto o Copom cortou 0,25 ponto percentual da Selic, levando a taxa básica de juros para 14,25%.
Mas dois detalhes não passaram despercebidos: lá fora, o comunicado que acompanhou a decisão foi mais enxuto, sem grandes pistas do que virá pela frente (lembrando que essa foi a primeira reunião sob o comando de Kevin Warsh, escolhido do presidente Donald Trump para substituir Jerome Powell); e por aqui, a mudança do horizonte relevante para o primeiro trimestre de 2028 foi o destaque do comunicado.
"A primeira coletiva de Kevin Warsh teve como principal foco as mudanças realizadas e as que ainda estão por vir. Ele confirmou que a orientação futura foi abandonada e disse que, até o fim do ano, haverá uma revisão ampla das coletivas de imprensa, dos gráficos de pontos, das reuniões e das atas", explica Andressa Durão, economista do ASA.
Assim deve ser daqui para frente. Essas mudanças de comunicação pretendidas tornarão as próximas decisões mais difíceis de interpretar, mas Warsh garantiu comprometimento com as metas de inflação, indicando que o Federal Reserve continuará fazendo o necessário para atingi-las.
No Brasil, no mesmo dia, o Comitê de Política Monetária fez o que era amplamente esperado, mas anunciou que a inflação mais próxima da meta só deve acontecer no 1º trimestre de 2028, portanto estendendo o seu horizonte relevante. A leitura do mercado é de que a autoridade monetária quer deixar aberta a porta para novos cortes.
"Nossa projeção é de encerramento de ciclo nessa reunião (em 14,25%), contudo, abriu-se uma possibilidade (grande) de o Banco Central seguir em seu ciclo de calibragem de juros, cortando novamente na reunião de agosto, esperando o desenrolar do cenário até lá", avalia Leonardo Costa, economista do ASA.
Enquanto isso, a projeção para a inflação em 2026, divulgada pelo Boletim Focus, subiu em todas as semanas de junho, saindo de 5,11% para 5,33%. A prévia do indicador, no entanto, mostrou uma alta abaixo do consenso do mercado (de +0,41% contra os +0,44% esperados).
Até aqui, o índice acumula 4,80% em 12 meses, resistindo acima do teto do regime de metas de inflação. O ASA projeta que o índice encerre o ano em 5,5%.
De acordo com Costa, o recuo recente do preço do petróleo, em meio ao avanço das negociações entre Estados Unidos e Irã, representa um vetor desinflacionário relevante; em sentido oposto, o risco de El Niño permanece no radar para o segundo semestre.
Se depender do petróleo, a pressão inflacionária já passou pelo pior. O barril da commodity opera na casa dos US$ 70, depois de ter passado dos US$ 110 no auge do conflito geopolítico entre Estados Unidos e Irã.
Para André Takamoto, gestor de portfólio de cliente private e wealth do ASA, essa queda atua como um descompressor essencial para a economia global. O gestor aponta que o recuo nas cotações traz uma trégua necessária após meses de tensão geopolítica.
"Vale lembrar que o preço médio dos 12 meses anteriores ao conflito é de US$ 63, tendo atingido US$ 113 no momento mais agudo das tensões", afirma Takamoto.
Desde o final de fevereiro de 2026, a economia mundial enfrentou um desafio clássico de oferta, em que a alta nos custos de energia pressiona as cadeias produtivas que só tem demonstrado alívio agora.
Apesar dessa sensação de menos pressão sobre o poder de compras, o Questionário Pré-Copom (QPC), divulgado no mês passado pelo Banco Central, expôs um contraste nas expectativas do mercado financeiro em relação à economia brasileira: enquanto alguns indicadores numéricos de curto prazo apresentaram melhora, o pessimismo estrutural com as contas públicas ganhou força.
De março a junho deste ano, o percentual de analistas que identificaram uma piora na situação fiscal do país entre as reuniões do Copom saltou de maneira expressiva, passando de 6% para 50%.
Brasília e o fiscal no foco
O fiscal esteve, mais uma vez, no centro das discussões no mês passado. Diante das discussões de pautas que ameaçam o Orçamento, se destaca a conclusão de que as metas atualmente previstas pelo arcabouço fiscal são insuficientes para estabilizar a DBGG (Dívida Pública do Governo Geral) em relação ao PIB (Produto Interno Bruto).
O TCU (Tribunal de Contas da União) verificou que, mesmo sob o cenário de cumprimento integral das metas fiscais previstas na LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias) de 2026, a dívida continuaria em trajetória ascendente até pelo menos 2029.
"A conclusão reforça a percepção de que o desafio fiscal brasileiro vai além do cumprimento formal das metas anuais e exigirá superávits primários mais robustos para conter o avanço do endividamento", avalia Jeferson Bittencourt, head de macroeconomia do ASA.
Segundo o Prisma Fiscal, sistema de coletas de expectativas do mercado divulgado pelo Ministério da Fazenda, a mediana para o déficit primário de 2026 passou de R$ 57,8 bilhões para R$ 59 bilhões, enquanto a projeção para 2027 piorou de R$ 47,9 bilhões para R$ 54,7 bilhões. A dívida bruta segue em trajetória ascendente, com expectativa de atingir 83% do PIB em 2026 e 86,5% em 2027.
Para onde olhar em julho
No Legislativo, a prioridade absoluta é o equilíbrio das contas públicas, sob a sombra das chamadas "pautas-bomba". O governo federal mantém vigilância sobre nove propostas (entre projetos de lei e PECs) que, se aprovadas, podem gerar um impacto de R$ 111 bilhões anuais em renúncia de receita ou aumento de despesas.
Medidas como a elevação do teto do Simples Nacional, renegociações de dívidas rurais e a ampliação de fundos municipais colocam a equipe econômica em desgaste com parlamentares que defendem esses pleitos.
Além do fiscal, reformas trabalhistas, discussões sobre a jornada de trabalho e pautas de segurança pública, como a PEC que tem o objetivo de integrar a atuação das forças de segurança, ocupam o debate. O Congresso corre para avançar nessas propostas e limpar a pauta de medidas provisórias e vetos antes da intensificação do ritmo político do segundo semestre - e o recesso parlamentar em 18 de julho.
Em um horizonte um pouco mais distante, pós-eleições, o governo Lula deve retomar a proposta de tributar títulos hoje isentos, como LCIs e LCAs. Apesar da resistência enfrentada em 2025, que levou ao abandono da ideia após intensas pressões do setor produtivo e de instituições como o BNDES, a equipe econômica mantém a convicção de que a mudança é necessária.
No exterior, o nível de transparência do novo presidente do Banco Central dos Estados Unidos segue em destaque, à espera da primeira ata do Fomc.
O mercado espera que Warsh dê início a um novo capítulo na comunicação da autoridade monetária, com mais descrição do cenário econômico e menos orientação futura.
Bolsa e dólar mais pessimistas
Pelo quarto mês consecutivo, o principal índice da bolsa brasileira encerrou em queda, despencando mais de 1% em junho. No primeiro semestre, no entanto, o Ibovespa acumula alta de 6,7%, ainda resquícios das disparadas do começo do ano, quando chegou a flertar com os 200 mil pontos.
A saída significativa do capital estrangeiro da bolsa brasileira está relacionada diretamente às expectativas sobre os juros, assim como o interesse pelas ações de tecnologia na maior economia do mundo.
No câmbio, o dólar encerrou o mês com valorização de 2,39% ante o real, influenciado pela expectativa de alta de juros nos Estados Unidos. O que leva o mercado a acreditar nisso são os sinais dados pelo banco central americano na última reunião do Fomc. O gráfico de pontos do comitê indicou um aumento da taxa de juros ainda neste ano.
"Com a mudança relevante no cenário traçado pelos membros do Fomc desde o início da guerra, Kevin Warsh não teria muito espaço para adotar um tom mais suave", avalia Durão.
Janela de oportunidade
O mercado de títulos públicos e privados abriu uma janela extensa de oportunidade para o investidor em junho. No caso dos títulos públicos, a disparadas das taxas levou papéis atrelados à inflação a superar a marca dos 8% ao ano de retorno.
As expectativas sobre a política monetária, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, elevou o estresse na curva futura de juros e fez com que as taxas pagas pelos títulos reagissem com disparadas. Esse movimento de alta destacou o risco da exposição a títulos de prazos mais longos em momentos de incerteza macroeconômica.
Enquanto nas debêntures o mês anterior foi de retomada no fôlego das emissões. Entre fevereiro e o final de maio, houve um período de incerteza em que os investidores exigiram taxas de juros bem maiores para comprar esses títulos, o que fez o spread (a diferença de rendimento entre a debênture e os títulos públicos) subir 0,80 ponto percentual.
Esse movimento indica que o mercado está entrando em um processo de acomodação, sugerindo que o pessimismo inicial diminuiu e os investidores voltaram a se sentir um pouco mais confortáveis para negociar esses papéis, o que ajuda a estabilizar as taxas de juros desses investimentos.
"Nesse contexto, voltamos a observar juros reais próximos de 9%, quando consideramos, por exemplo, os títulos indexados à inflação com vencimento entre 2029 e 2035", destaca Rodrigo Soares Holz de Abreu, gestor dos fundos ASA Alpha.
Abreu reforça que o patamar atual se trata do maior nível de juro real observado nas últimas décadas.
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