Artigo escrito por Rogerio Freitas, head de investimentos do ASA
Apesar de ainda existirem muitas dúvidas sobre o futuro e os impactos dos recentes acontecimentos na Venezuela, podemos afirmar alguns fatos.
Importante deixar claro que o nosso objetivo não é fazer nenhuma análise de juízo moral, mas sim analisar os possíveis impactos geopolíticos, econômicos e de mercado.
O governo norte-americano conduziu uma operação que resultou na captura do ditador venezuelano Nicolás Maduro e de sua esposa. Até o momento, as acusações divulgadas referem-se ao tráfico internacional de drogas.
A justificativa americana é de que seus militares apenas auxiliaram na execução de um mandado de prisão contra um narcotraficante que se fazia passar por presidente da Venezuela.
O caso mais próximo de uma ação precedente é a invasão do Panamá, em 1989, que removeu do poder o ditador Manuel Noriega, posteriormente levado aos Estados Unidos, julgado e condenado a 40 anos de prisão. Portanto, embora rara, a ação atual não é inédita.
A partir daqui, entramos no terreno da especulação. Quem governa a Venezuela agora? O presidente norte-americano Donald Trump afirma que os Estados Unidos exercerão controle temporário até a realização de eleições para um novo governo. Em contrapartida, as forças armadas venezuelanas já reconheceram a vice-presidente Delcy Rodriguez como presidente interina.
Aqui surge o primeiro grande problema. Do ponto de vista americano, declarar que exercerá o controle é a parte simples. Mas como será a parte prática? Para que esse controle se concretize, seria necessária alguma forma de ocupação militar.
Já do lado venezuelano, a vice-presidente Delcy Rodrigues já declarou que o país resistirá a qualquer tentativa de controle externo. Porém, resistir significaria enfrentar a força militar mais poderosa do planeta.
No horizonte, devem surgir impactos geopolíticos e questionamentos institucionais domésticos e internacionais relevantes, especialmente sobre a capacidade do presidente norte-americano de conduzir ações militares ofensivas sem aprovação do Congresso, algo que, segundo nosso entendimento, seria inconstitucional - além do precedente de interferência armada na soberania dos países.
A China condenou a ação norte-americana. Afirmou que "atos hegemônicos dos Estados Unidos violam gravemente o direito internacional e a soberania da Venezuela, além de ameaçarem a paz e a segurança na América Latina e no Caribe".
Ainda assim, a China pode enxergar um precedente na ação americana.
Pequim considera Taiwan uma província dissidente e já declarou que devolver o território ao controle de Pequim é uma prioridade nacional.
Se os Estados Unidos afirmam ter o direito de usar força militar para invadir e capturar líderes estrangeiros acusados de conduta criminosa, o que impede a China de reivindicar a mesma autoridade sobre a liderança de Taiwan? O que impede o presidente russo Vladimir Putin de apresentar justificativa semelhante para sequestrar o presidente da Ucrânia?
Uma vez que essa linha é cruzada, as regras que contêm o caos global começam a ruir, e regimes autoritários serão os primeiros a explorá-la.
Do ponto de vista de contágio regional e instabilidade geopolítica, os efeitos iniciais parecem limitados. Ainda assim, o longo histórico de intervenções armadas na América Latina sugere que novas interferências podem vir a acontecer.
Trump ameaçou o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, afirmou que "algo vai ter que ser feito com o México" e já - há algum tempo - Cuba está na agenda dos EUA.
O presidente Trump não esconde seu desejo de controlar as enormes reservas minerais da Venezuela e naturais da América Latina.
Isso também deve aprofundar os temores na Groenlândia e na Dinamarca de que ele volte seu olhar não apenas para o sul, mas também para o norte.
Pelo lado dos mercados, o canal mais direto é o preço do petróleo, embora o efeito esteja longe de ser claro. Segundo dados da Agência Internacional de Energia (IEA), a produção venezuelana gira em torno de 945 mil barris por dia.
O mercado físico de petróleo encontra-se atualmente bem abastecido, e países da OPEP dispõem de capacidade ociosa mais do que suficiente para compensar essa eventual perda de oferta.
Paradoxalmente, no longo prazo, o efeito pode ser o oposto. A Venezuela possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, estimadas em mais de 300 bilhões de barris. Nos anos 1990, sua produção chegou a quase 3,5 milhões de barris por dia.
O presidente norte-americano já declarou que um dos objetivos da operação é garantir o acesso de empresas americanas a essas reservas. Evidentemente, isso demandará tempo, dada a condição altamente depreciada da infraestrutura local. Portanto, o efeito pode ser uma revisão de alta da oferta de petróleo ao longo do tempo, num mercado já sobreofertado.
De modo geral, portanto, os impactos imediatos sobre os mercados parecem restritos.
É importante deixar claro que isso não significa minimizar o risco de uma crise humanitária.
Há, neste momento, um vácuo de poder que pode desencadear uma onda de violência, algo que já aconteceu em 1994 no Haiti, quando o então presidente norte-americano Bill Clinton enviou 25 mil soldados e dois porta-aviões para impor uma mudança de regime.
Os 30 anos seguintes foram marcados por sofrimento quase ininterrupto para o povo haitiano. Hoje, o Haiti é um Estado falido dominado por gangues e milícias armadas.
A economia venezuelana, já profundamente deprimida, pode praticamente paralisar, e a interrupção de serviços básicos e do abastecimento de alimentos é uma possibilidade concreta.
O desfecho dependerá, em grande medida, da existência ou não de um plano americano para o 'day after'.
A experiência histórica mostra que remover um ditador costuma ser muito mais fácil do que construir, posteriormente, um governo funcional e estável.