investimentos

Visão 360º: Geopolítica, risco inflacionário e tributação de isentos no radar em março

Confira o impacto do conflito no Oriente Médio sobre o preço do petróleo, os riscos para a inflação brasileira e as perspectivas para a taxa de juros e a tributação de ativos isentos em março
04 de março de 2026

Essa é a edição de março da newsletter Visão 360º do ASA. Nosso conteúdo mensal para você ficar por dentro das informações mais relevantes do mercado financeiro e do cenário econômico. Assine aqui.

O cenário global de março de 2026 é definido por uma variável que foge aos modelos tradicionais de oferta e demanda: a incerteza geopolítica. A recente escalada dos conflitos no Oriente Médio adicionou uma camada de complexidade onde o risco passou a ditar o preço dos ativos.

Segundo Felipe Sze, gestor de multimercados do ASA, o mercado vive um cenário de "altíssima volatilidade" diante da imprevisibilidade da escalada militar. "O viés para o petróleo é de alta a cada dia em que o conflito não se resolve, refletindo o prêmio de risco pela dificuldade logística e o receio de gargalos no escoamento global", explica Sze.

O ponto nevrálgico é o Estreito de Ormuz, por onde passam cerca de 20% do fornecimento global de petróleo e gás natural liquefeito (GNL). Andressa Durão, economista do ASA, destaca que o impacto de um bloqueio depende diretamente de sua duração.

Por enquanto, o estreito segue bloqueado e a guerra segue em andamento. Estoques de petróleo estão sendo acumulados em alguns países, dado o bloqueio das exportações, já levando a uma redução da produção.

"Se for breve, o efeito tende a ser limitado, já que empresas podem recorrer a estoques e rotas alternativas. Caso se estenda por meses, os estoques se esgotam e ocorre uma redução significativa da oferta global", afirma.

A economista lembra ainda que a China é o elo mais frágil dessa corrente, já que recebe 14% de suas importações de petróleo diretamente do Irã. Para tentar mitigar o choque, a OPEP+ (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) concordou em elevar a produção em 206 mil barris por dia, superando a previsão inicial de 137 mil.

As últimas notícias foram pessimistas e aumentaram as preocupações de que a resposta retaliatória do Irã seja prolongada, visando semear o caos na região, atacando infraestruturas econômicas e energéticas cruciais nas próximas semanas.

Para a economia brasileira, o principal risco do prolongamento do conflito é a pressão da inflação (via aumento de petróleo e desvalorização da moeda). Domesticamente, a inflação vinha em movimento benigno no curto prazo, o que pode se encerrar caso a haja piora da moeda nos próximos dias.

Apesar da turbulência, o consenso inicial é de que o plano de voo do Banco Central para a reunião de março permanece inalterado. No entanto, o prolongamento da crise pode alterar o "patamar" de equilíbrio dos preços.

Fabiano Zimmermann, head de fundos de renda fixa do ASA, observa que o mercado de juros já precifica essa incerteza.

"O conflito não deve alterar, neste momento, o plano do BC de iniciar o ciclo de cortes em março. No entanto, caso a crise se prolongue, seus desdobramentos podem interromper a valorização do real e provocar uma mudança no patamar do petróleo", explica.

Assim, a avaliação corrente é que o Copom deve manter o plano de iniciar o ciclo de flexibilização, com corte de 0,50 pp na decisão de 18 de março.

No âmbito fiscal, a equipe econômica avalia que se o preço do barril de petróleo subir sustentadamente para cerca de US$ 85, as receitas orçamentárias de 2026 poderiam aumentar entre R$ 5 bilhões e R$ 10 bilhões, impulsionadas por royalties e leilões de participação em áreas de petróleo, seguindo estimativas acima das previstas na Lei Orçamentária Anual.

No entanto, há cautela frente às incertezas do conflito no Oriente Médio, à apreciação do real frente ao dólar – o que tende a neutralizar parte do ganho fiscal – e à volatilidade no mercado global.


Jornada 6x1

A discussão sobre o fim da jornada 6x1 voltou à agenda do Congresso Nacional após reunião convocada pelo presidente do Senado Davi Alcolumbre, com líderes e representantes do setor produtivo. O tema já tramitava no Senado por meio da PEC 148/2015.

Empresários apresentaram preocupações com o impacto econômico da proposta, estimando que a medida pode elevar o custo do trabalho em cerca de 22%. Parlamentares favoráveis à mudança reconhecem que a transição exigirá avaliação cuidadosa do mercado de trabalho e das empresas.

O tema carece de definições até sobre o formato legislativo. A proposta divide opiniões entre trabalhadores e setor produtivo.

Na terça-feira (03/03), 100 entidades assinaram manifesto se opondo – não à discussão, mas ao momento eleitoral para fazê-la. Já pelo governo, os ministros Luis Marinho (Trabalho) e Simone Tebet (Planejamento) dizem não ver razão para compensar os empresários pelo custo adicional.


Redata

O Ministério da Fazenda ainda busca solução jurídica para restabelecer o ReData, criado pela MP 1.318/2025 e caducado no Senado.

O projeto, criado para impulsionar o setor de data centers no Brasil e aprovado na Câmara dos Deputados, travou por decisão do presidente do Senado Davi Alcolumbre, exigindo negociação. O impasse envolve a LC 224/2025, que limita benefícios fiscais.

O ministro Fernando Haddad fala em saída com cautela legal e fiscal. O impacto é de R$ 5,2 bilhões em 2026. O setor alerta para risco a investimentos de até R$ 1 trilhão até 2030.


Tarifa zero

Apontada como prioridade do governo Lula para 2026, a proposta de tarifa zero no transporte público enfrenta ceticismo no Congresso, inclusive entre aliados, diante das incertezas sobre custo e impacto fiscal.

Lula pediu à Fazenda que acelere estudos para viabilizar o anúncio em ano eleitoral, mas a pasta afirma não ter posição concreta. Estimativas de custo variam de R$ 90 bilhões/ano (empresas de transporte) a R$ 200 bilhões/ano (prefeituras).

Líderes de centro consideram a medida difícil sem fonte de receita definida. Aliados admitem que o tema deve ficar para 2027.

Projetos de Jilmar Tatto sugerem financiar a medida com cobrança sobre aplicativos ou fundo com recursos do vale-transporte. O ministro Fernando Haddad estuda cenários para mitigar o impacto fiscal antes de eventual inclusão no plano de governo.

Semana passada foi publicado que a Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda era favorável à medida, mas a Secretaria se apressou em dizer que apoiou o Marco Legal do Transporte (PL 3.278/2021), que financia gratuidades, mas afirmou que o texto não trata de tarifa zero e que não há posição fechada da Fazenda sobre o tema.


Tributação de isentos

O governo deve publicar consulta pública sobre decreto para cobrança de IOF de 3,5% sobre ativos virtuais, com isenção para pessoas físicas até R$ 10 mil mensais.

Oficialmente busca-se “neutralidade fiscal” e evitar arbitragem entre remessas tradicionais e criptoativos. O IOF incidirá na liquidação cambial, na troca de titularidade. Criptoativos declarados saltaram de R$ 94,9 bilhões em 2020 para R$ 415,8 bilhões em 2024. As empresas concentram 97% desse total.

Também voltou ao radar a discussão sobre a tributação de títulos isentos de Imposto de Renda, com aplicação de IOF, sobre Letras de Crédito Imobiliário e do Agronegócio, Certificados de Recebíveis Imobiliários e do Agronegócio e debêntures incentivadas.

O estoque em fundos de investimento já supera os R$ 600 bilhões, segundo dados da Anbima de maio, o que faz com que o impacto sistêmico de qualquer reprecificação seja maior do que no passado.

Embora o debate ainda não tenha uma definição concreta, o simples retorno do tema já é suficiente para elevar o prêmio de risco exigido por investidores e desestimular emissões de prazo mais longo, exatamente as que o país mais precisa.

"No limite, uma perda relevante de atratividade do instrumento encareceria o custo de capital para projetos importantes de saneamento, energia e transporte, revertendo anos de desenvolvimento do mercado de capitais privado e recolocando o financiamento público onde o setor privado havia avançado", avalia Caio Crepaldi de Paula, head de fundos de crédito privado do ASA.

Ele destaca, contudo, que os fundos de infraestrutura seguem atrativos.

O governo tem apontado que esses títulos de renda fixa isentos têm causado distorções na rolagem da dívida pública e, também, que o pagamento de operações no exterior com criptoativos tem sido usado como um caminho para escapar da taxação de operações de câmbio, que foi elevada em 2025.

“Com o aval obtido no STF no ano passado, há uma forte tendência de o governo introduzir, muito em breve, IOF nestas duas operações e com base naqueles argumentos regulatórios, para dar continuidade a sua estratégia de aumento contínuo da carga tributária”, avalia Jeferson Bittencourt, head de macroeconomia do ASA.

Usamos dados pessoais e cookies para analisar o uso de nosso site, direcionar conteúdos e anúncios personalizados e aprimorar a sua experiência. Ao continuar navegando, você concorda com a nossa política de privacidade e política de cookies.