O Copom (Comitê de Política Monetária) decidiu, por unanimidade, manter a Selic em 13,75% ao ano e interromper o ciclo de flexibilização monetária.
A decisão foi na contramão da expectativa do ASA, que avaliava que a probabilidade de manutenção havia aumentado substancialmente desde a última reunião, mas não esperava a interrupção neste momento.
Segundo o economista do ASA, Leandro Padulla, o comunicado veio mais cauteloso e reflete a piora das condições inflacionárias e financeiras observada desde setembro.
“A combinação entre inflação mais elevada, expectativas desancoradas e aumento dos riscos passou a prevalecer sobre os sinais de desaceleração da atividade econômica”, afirma o economista.
O cenário externo também foi classificado pelo Comitê como mais adverso. Entre os fatores citados estão o prolongamento dos conflitos no Oriente Médio, com impacto sobre os preços do petróleo, e a manutenção de condições monetárias restritivas nas economias avançadas.
No plano doméstico, o BC reconheceu uma desaceleração mais intensa da atividade. O mercado de trabalho, que antes era descrito como aquecido, passou a ser visto como resiliente, mas com sinais de desaquecimento.
O principal ponto de preocupação, segundo o economista, é a inflação. Tanto a inflação cheia quanto as medidas subjacentes voltaram a acelerar e estão acima do limite superior do intervalo de tolerância da meta.
As expectativas do Relatorio Focus seguem em deterioração, em 5,2% para 2026 e 4,8% para 2027. O próprio Copom revisou suas projeções para cima, com o IPCA estimado em 4,7% para 2027 e em 3,5% para o segundo trimestre de 2028, horizonte relevante para a política monetária.
LEIA TAMBÉM: Forte piora da inflação no Focus projeta Selic alta por mais tempo
A revisão incorpora choques de oferta recentes, especialmente os ligados ao petróleo e aos preços administrados.
Quanto ao balanço de riscos, ele continua formalmente assimétrico para cima, mas com ajustes na composição. Do lado que puxa a alta, a expressão “hiato do produto mais positivo” foi trocada por “hiato do produto positivo”, uma formulação um pouco menos agressiva.
Do lado da baixa, passou a constar explicitamente a possibilidade de desaceleração global por condições financeiras mais restritivas, além dos choques de comércio e petróleo.
Para Padulla, essas mudanças mostram que o BC reconhece com mais clareza os fatores de desaceleração, sem alterar a avaliação de que os riscos inflacionários seguem predominantes.
Próximos passos
Para as próximas reuniões, o Comitê afirmou que a Selic já está em nível “substancialmente contracionista”. Na leitura do economista, isso indica que, mesmo com o fim dos cortes, a barra para uma alta de juros segue elevada.
“Em nossa avaliação, o Copom entende que o atual nível da taxa de juros já produz um grau significativo de restrição monetária e prefere observar a evolução dos choques recentes antes de considerar ajustes adicionais”, diz Padulla.
Com base nesse quadro, o ASA projeta a manutenção da Selic em 13,75% nas próximas reuniões. Uma eventual retomada da discussão sobre flexibilização dependeria de melhora das expectativas de inflação e da convergência das projeções para a meta.
LEIA TAMBÉM: Governo inicia gestão pressionado por dívida recorde e desaceleração do PIB